Meio Ambiente

Calor recorde no Nordeste derrete mel e assusta até veteranos do campo

Favos de mel derretendo em colmeia no Nordeste sob calor recorde histórico
Calor extremo no Nordeste faz mel derreter nos favos, fenômeno nunca visto por apicultores veteranos.

O Nordeste registra as temperaturas mais altas do século XXI, com um fenômeno inusitado: mel armazenado em favos naturais está derretendo nas colmeias. Apicultores com décadas de experiência afirmam nunca ter visto nada parecido.

O calor extremo não é apenas desconforto — ele ameaça a produção de mel, a polinização de culturas e a renda de milhares de famílias rurais. O que está por trás desse cenário e até onde ele pode chegar?

O termômetro não mente: números que impressionam

Estações meteorológicas em estados como Piauí, Ceará e Bahia vêm marcando máximas históricas desde o início do ano. Em algumas localidades, os termômetros superaram 42°C à sombra — valores que, até poucos anos, eram raros mesmo no auge do verão.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alertas vermelhos para ondas de calor em mais de 200 municípios nordestinos apenas no primeiro trimestre. A frequência desses avisos dobrou em relação ao mesmo período de 2023.

Quando o mel vira líquido: o termômetro das abelhas

O derretimento do mel nos favos não é apenas uma curiosidade. Ele funciona como um indicador biológico preciso: a cera começa a amolecer acima de 35°C e entra em colapso estrutural perto de 40°C. Quando o mel escorre, a colmeia perde reservas, as larvas morrem e a rainha pode abandonar o ninho.

Apicultores do sertão pernambucano relatam perdas de até 60% do estoque de mel em apiários sem sombreamento adequado. “Tenho 30 anos de lida e nunca vi o mel escorrer da caixa assim”, diz um produtor da região de Petrolina, que preferiu não se identificar.

Impacto em cadeia: do apiário à mesa do consumidor

O prejuízo extrapola a apicultura. As abelhas são responsáveis pela polinização de cerca de 70% das culturas alimentares no Brasil. Colmeias enfraquecidas pelo calor reduzem a visitação a flores de melancia, maracujá, caju e melão — culturas vitais para a economia regional.

  • Queda na produção de mel: estimativa de retração de 30% a 40% na safra 2024/2025 no semiárido.
  • Risco à fruticultura irrigada: polos como Petrolina/Juazeiro dependem de polinizadores para manter a produtividade.
  • Pressão sobre preços: o quilo do mel a granel já acumula alta de 22% nos atacados do Nordeste nos últimos seis meses.

Adaptação possível? O que produtores estão testando

Diante do cenário, apicultores e técnicos vêm experimentando estratégias de mitigação. Algumas mostram resultado; outras, ainda são apostas.

A instalação de coberturas refletivas sobre os apiários reduziu a temperatura interna das caixas em até 6°C em testes no Ceará. Outra frente é o manejo genético: seleção de rainhas mais tolerantes ao calor, vindas de linhagens africanizadas adaptadas ao semiárido.

Há também quem invista em alimentação suplementar com xarope de açúcar para compensar a perda de mel, embora isso aumente o custo operacional em até 35%.

O que observar nos próximos meses

O fenômeno El Niño, que intensificou o calor no primeiro semestre, dá sinais de transição para neutralidade climática. Modelos indicam possibilidade de La Niña no segundo semestre, o que traria chuvas mais regulares ao Nordeste — mas não antes de um inverno atípico, com temperaturas acima da média histórica.

Para o empresário do agronegócio ou investidor do setor, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a evolução dos alertas do Inmet, o comportamento do preço do mel no atacado e a taxa de mortalidade de colmeias nos relatórios das associações estaduais de apicultores. O calor de 2024 já deixou lições; a forma como o setor se preparar para 2025 definirá quem colhe — e quem perde — no próximo ciclo.