Tecnologia

Milei aposta na Patagônia como novo polo de IA: energia barata e terra vazia bastam?

Data center modular na Patagônia argentina alimentado por gás de Vaca Muerta ao pé de vulcão
Projeto-piloto de 12 MW usa gás queimado da extração de petróleo para alimentar servidores de IA na estepe patagônica.

A Argentina quer transformar sua estepe patagônica em um hub global de inteligência artificial, usando gás queimado em poços de petróleo como combustível para data centers. O plano tem apoio de bilionários do Vale do Silício, mas esbarra em rede elétrica frágil, resistência política e a distância dos grandes centros de consumo.

Um projeto-piloto de 12 MW já roda aos pés de um vulcão, alimentado por gás que seria queimado como subproduto da extração em Vaca Muerta. A Unblock Energy, dona da instalação, planeja escalar para centenas de megawatts. O fundador Tomás Ocampo diz ter recebido enxurrada de ligações de investidores americanos após as eleições de meio de mandato nos EUA, quando medidas contra data centers derrubaram ações do setor.

O pacote de incentivos que pode destravar bilhões

O governo Milei encaminhou ao Congresso um regime com isenções fiscais, promessa de não regulamentar IA e até a figura de “corporações não humanas”. O texto já passou pela Câmara e aguarda o Senado. Para Raimundo Díaz, da Vistra Global Solutions, a Argentina é “um dos únicos países com poucas restrições para implementar data centers de grande capacidade em curto período”.

Dois anúncios recentes sinalizam apetite: a Pampa Energy oferece 800 MW em Neuquén, e a polonesa Green Capital prevê US$ 3 bilhões em Chubut. Mas o projeto mais badalado — um campus de 500 MW para a OpenAI, anunciado em outubro — não avançou. A Sur Energy, responsável, diz que “a bola está com a OpenAI”; a OpenAI responde que era apenas “potencial compradora”.

Vaca Muerta: energia sobrando, gasodutos faltando

A formação de xisto, do tamanho da Bélgica, mais que dobrou a produção de petróleo desde 2024. O gás, porém, quase não cresceu por falta de dutos. A Unblock estima que a queima em tochas desperdiça o equivalente a 600 MW de geração potencial; até 3 GW ficam no subsolo sem demanda.

  • Capacidade atual de data centers na Argentina: < 40 MW
  • Chile (referência regional): ~400 MW
  • Gás queimado em Vaca Muerta (potencial): ~600 MW
  • Gás parado por falta de escoamento: até 3 GW

Ex-executivo da YPF, Germán Serrano resume a tese: “mais eficiente construir data centers em Vaca Muerta e transportar fótons pelo mundo do que transportar energia até os data centers”. A engenheira-chefe da Unblock, Miranda Marrazzo, completa: “levamos o data center para onde há energia sobrando”.

O gargalo da latência e o nicho do treinamento

A Patagônia fica a milhares de quilômetros dos grandes centros urbanos da América do Norte e Europa. Isso descarta aplicações sensíveis a latência — inferência em tempo real, trading de alta frequência, jogos. Mas o treinamento de modelos, que tolera atrasos, encaixa-se bem na geografia remota.

Projetos renováveis também abundam: quase 6 GW aguardam conexão ou enfrentam restrições de geração pela rede limitada. Em setembro, o governo determinou que novos empreendimentos de grande porte devem prover infraestrutura para 80% de sua eletricidade, evitando sobrecarregar o sistema existente.

Resistência política, ambiental e fundiária

A oposição acusa Milei de transformar o país em “laboratório” de big techs. A compra de uma mansão em Buenos Aires por Peter Thiel, reunões a portas fechadas com a equipe presidencial e a aquisição de participação em petrolífera local geraram audiência no Congresso. Protestos em massa forçaram o governo a recuar de flexibilização da propriedade de terras por estrangeiros.

Ativistas alertam para estresse hídrico na Patagônia e geração de poucos empregos. Oscar Soria, da sociedade civil, classifica os benefícios como “excessivos”. Daniel Yankelevich, do centro de estudos Fundar, cobra que data centers sejam “um meio, não o objetivo final”, defendendo que empresas argentinas agreguem valor além de ceder terra e energia.

O que observar nos próximos meses

A aprovação do regime de incentivos no Senado é o gatilho imediato. Se passar, a velocidade de execução dos anúncios (Pampa, Green Capital, Unblock) testará a capacidade real de entrega. Do lado da demanda, qualquer sinal concreto da OpenAI ou de outras big techs — contratos assinados, não apenas “interesse potencial” — mudará a narrativa de aposta para realidade. Acompanhe também a expansão da malha de gás em Vaca Muerta: sem dutos, o gás continua virando fumaça, e a vantagem competitiva da Patagônia segue teórica.