O Nordeste registrou as temperaturas mais altas do século XXI nos primeiros meses de 2024, com termômetros superando 40°C em capitais como Teresina e Petrolina. O fenômeno já causa prejuízos diretos na produção de mel — um dos carros-chefe da região — e acende alerta para safras de frutas, grãos e pecuária.
Apicultores relatam perdas de até 30% nas colmeias. O calor extremo derrete favos, mata larvas e força abelhas a abandonar colônias. “Em 20 anos de atividade, nunca vi favo derreter dentro da caixa”, diz um produtor do sertão piauiense.
O efeito nos pequenos negócios
O mel nordestino responde por cerca de 40% da produção nacional e movimenta R$ 1,2 bilhão ao ano. A quebra de safra pressiona preços no atacado e reduz margens de cooperativas que exportam para Europa e EUA.
Não é só a apicultura. Dados da Embrapa mostram que ondas de calor acima de 38°C por mais de cinco dias consecutivos reduzem a produtividade de:
- Manga: queda de 15% a 25% no pegamento dos frutos
- Melão: rachaduras na casca e perda de doçura
- Milho e feijão: estresse hídrico antecipado
- Leite: redução de 10% a 20% na produção por vaca/dia
Por que isso pode se agravar nos próximos meses
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) projeta que o fenômeno El Niño, embora em enfraquecimento, ainda influencia o clima até maio. A combinação de solo seco, umidade baixa e ausência de chuvas regulares cria um ciclo de retroalimentação: quanto mais quente, menos chove; quanto menos chove, mais quente fica.
Modelos climáticos indicam 60% de probabilidade de temperaturas acima da média histórica no trimestre abril-junho para o interior do Nordeste. Para o semiárido, a chance sobe para 75%.
Adaptação: o que produtores e investidores estão fazendo
Grandes grupos já migram parte da produção para áreas de altitude ou investem em sombreamento artificial, irrigação de precisão e genética tolerante a calor. Pequenos e médios, no entanto, esbarram no custo: um sistema de nebulização para apiário custa R$ 8 mil a R$ 15 mil por hectare.
O Banco do Nordeste (BNB) ampliou em 18% a linha de crédito para adaptação climática em 2024, com taxas a partir de 4,5% ao ano. A demanda, porém, supera a oferta: apenas 35% dos pedidos foram aprovados no primeiro bimestre.
O que observar daqui pra frente
Três variáveis definirão o tamanho do impacto até o fim do primeiro semestre: o início efetivo da quadra chuvosa no sertão, a velocidade de liberação de crédito rural climático e a capacidade de escoamento da produção que sobreviver ao calor. Quem depende de safras anuais — caso do mel, manga e melão — tem janela estreita para decidir: investir em proteção, migrar área ou assumir a perda. O mercado já precifica alta de 20% a 35% no mel atacado para o segundo semestre.
