Pela primeira vez no terceiro mandato de Lula, a expectativa de melhora e piora na economia empatam tecnicamente: 39% para cada lado. O dado, da pesquisa Quaest divulgada neste domingo, marca uma virada brusca em relação a agosto, quando 46% apostavam em avanço e apenas 24% previam retrocesso.
O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre 30 de outubro e 2 de novembro, com margem de erro de dois pontos percentuais. O que chama atenção não é apenas o empate, mas a velocidade da deterioração do sentimento — e como ela se distribui de forma assimétrica pelo país.
O abismo entre ricos e pobres
Entre quem ganha acima de cinco salários mínimos, o pessimismo disparou: 49% esperam piora contra 30% de melhora. Em agosto, os pessimistas nesse grupo somavam 30%. Ou seja, a fatia dos que veem o futuro com receio cresceu 19 pontos em três meses.
No extremo oposto, quem recebe até dois salários mínimos mantém o otimismo: 48% projetam melhora e 29%, piora. O Nordeste reforça esse padrão com 50% a 25%, enquanto o Sul inverte a lógica — 58% acreditam em retrocesso e só 24% veem avanço.
Escolaridade e idade também separam o eleitorado
- Ensino superior: 46% pessimistas vs 31% otimistas
- 16 a 34 anos: 41% veem piora, 34% melhora
- 60 anos ou mais: 43% otimistas, 29% pessimistas
Jovens mais céticos, idosos mais confiantes. Um padrão que foge ao senso comum e merece acompanhamento nas próximas rodadas.
O viés partidário explica — mas não justifica — tudo
Entre lulistas, 79% esperam melhora e apenas 2%, piora. No campo bolsonarista, o pessimismo saltou de 38% em agosto para 84% agora. A direita não bolsonarista acompanhou o movimento: foi de 42% para 80% dos que veem retrocesso à frente.
Os independentes, contudo, permanecem estáveis: 35% otimistas, 30% pessimistas. É nesse grupo que a disputa real pela narrativa econômica se joga.
O que tira o sono de quem teme o futuro
Dos 48% que se dizem mais preocupados do que otimistas, 27% apontam economia, gastos públicos, dívida e juros como motivo principal. Segurança pública aparece com 17%, corrupção e relação com o Congresso empatam em 12%. Na faixa acima de cinco salários, a preocupação econômica chega a 30%.
Já entre os otimistas (44% do total), a economia pesa pouco: só 6% citam crescimento ou infraestrutura como razão de esperança. Lideram a defesa da democracia e combate ao bolsonarismo (20%), programas sociais (17%) e regulação de bets e redes sociais (16%).
As cobranças práticas continuam sendo econômicas
Apesar da polarização ideológica, as três prioridades de campanha mais citadas são concretas: fim da escala 6×1 (17%), isenção de impostos na cesta básica (16%) e valorização do salário mínimo (11%). A ordem quase não muda entre ricos e pobres — no topo da pirâmide, escala 6×1 e cesta básica empatam com 17% cada.
O que observar daqui para frente
O empate técnico esconde uma fratura social profunda. Se o pessimismo entre os mais ricos e escolarizados se mantiver ou avançar, decisões de investimento, contratação e precificação podem antecipar um ciclo de cautela real — independentemente dos fundamentos macroeconômicos. A próxima rodada da Quaest, somada aos dados de inflação e emprego do primeiro trimestre, dirá se o sentimento vira profecia autorrealizável ou apenas ruído de curto prazo.
