Pela primeira vez em sete décadas, a Feira do Livro de Porto Alegre tem mulheres ocupando simultaneamente a presidência e o patronato. O marco histórico ocorre na 72ª edição do maior evento literário a céu aberto da América Latina, que transforma a capital gaúcha em palco de mais de 700 atividades gratuitas durante 17 dias.
Mais do que uma troca de cadeiras, a mudança sinaliza uma transformação profunda nos valores que a feira deseja celebrar. Mas o simbolismo vai além do gênero: pela primeira vez, uma mulher negra assume o posto de patrona.
Quem são as protagonistas deste capítulo
A presidência da Câmara-Riograndense do Livro, entidade promotora do evento, está nas mãos de Roseni Siqueira Kohlmann. Já o patronato — função que representa a “alma” da edição e sintetiza os ideais a serem celebrados — coube a Heloisa Pires Lima.
Escritora, antropóloga e educadora, Heloisa tornou-se a primeira mulher negra e a segunda pessoa negra eleita patrona em 72 anos de história. A escolha quebra um ciclo de invisibilidade em um estado onde a população negra representa 21% do total, segundo dados do IBGE, mas historicamente viu pouca representatividade nos postos de prestígio cultural.
Por que a literatura infanto-juvenil está no centro do debate
A trajetória da patrona não é aleatória. Heloisa Pires Lima consolidou-se pelo protagonismo negro na literatura voltada para crianças e jovens. Esse foco atende a uma urgência estratégica: a formação de novos leitores.
O hábito da leitura impacta diretamente educação, desenvolvimento socioeconômico e cidadania. Contudo, a patrona traz um alerta que ecoa para além do evento. Em conversa exclusiva, ela resumiu o dilema:
“Não adianta incentivar a leitura com livros racistas.”
A frase resume a tensão entre quantidade e qualidade no acesso ao livro. Livros que reforçam estereótipos prejudicam a autoimagem de crianças negras e naturalizam preconceitos para crianças brancas. A presença de Heloisa no posto máximo da feira funciona, portanto, como um filtro curatorial poderoso.
Os números que dimensionam o evento
- 72ª edição consecutiva sem interrupções;
- 17 dias de programação ininterrupta a céu aberto;
- Mais de 700 atividades gratuitas para o público;
- 21% da população do RS se declara preta ou parda (IBGE);
- 2 patronos negros em 72 anos de história.
O que observar daqui para frente
O fechamento desta edição não apaga a conquista, mas lança uma pergunta para o mercado editorial e para as próximas gestões: a representatividade no topo irá se traduzir em catálogos mais diversos nas bancas e nas escolas?
A Feira do Livro de Porto Alegre, patrimônio imaterial da cidade, costuma ditar tendências para o circuito literário nacional. Se a escolha da patrona servir de bússola para curadorias futuras, o legado de 2024 será medido não apenas por quem subiu ao palanque, mas pelas histórias que finalmente chegarão às mãos das crianças nos próximos anos.
