Donald Trump assumiu com um alinhamento político que nenhum presidente tinha desde 1953: maiorias nas duas casas do Congresso, controle da Suprema Corte e vitória no voto popular. Dois anos depois, a enxurrada legislativa secou. O que aconteceu no meio do caminho reescreve as regras do jogo para quem aposta em estabilidade institucional nos EUA.
O mito do “governo unificado” desmorona nos números
A literatura política americana aponta um padrão claro: desde 1946, a configuração mais comum é o governo dividido. Em 71% do tempo a partir de 1981, pelo menos uma casa legislativa pertenceu à oposição. As eleições de meio de mandato existem justamente para impedir maiorias permanentes — um freio desenhado pelos pais fundadores.
Trump tratou os primeiros 24 meses como uma janela única. A estratégia, batizada de “decisionismo trumpista”, previa aprovar tudo de uma vez, sem negociação. O tiro saiu pela culatra antes do previsto.
O tsunami azul que ninguém previu
Três forças convergiram para virar o jogo nas midterms:
- Inflação de dois dígitos puxada por duas guerras simultâneas e a guerra tarifária
- Rechaço latino às operações do ICE em comunidades agrícolas — justamente a base eleitoral do presidente
- Redesenho distrital agressivo que mobilizou o eleitorado metropolitano contra a percepção de captura do sistema
O resultado foi uma coalizão improvável: estados rurais prejudicados pelo custo do diesel e do fertilizante uniram-se a subúrbios educados das grandes metrópoles. O mapa eleitoral inverteu-se em distritos que o partido controlava havia décadas.
Por que o presidente dos EUA é estruturalmente fraco
Diferente do Brasil, o ocupante da Casa Branca não apresenta projetos de lei, não tem iniciativa exclusiva em matéria orçamentária ou tributária e não pode contingenciar despesas sem aval do Congresso. Se o orçamento não passa, o governo para — shutdown puro, sem execução provisória nem prevalência da proposta executiva.
O Legislativo pode inclusive aumentar o gasto total da lei orçamentária. O poder de agenda pertence, na prática, aos líderes partidários no Capitólio.
O único bastião real: o veto total
Restou a Trump virar “Mr. Veto”. A arma é potente: derrubar um veto exige dois terços em cada casa — no Brasil, maioria absoluta basta. Historicamente, só 7% dos vetos presidenciais caíram.
Mas há um detalhe crucial: o veto americano é total, não parcial. Não dá para cortar um artigo e sancionar o resto. Ou engole o pacote inteiro, ou rejeita tudo. Isso transforma cada negociação em um jogo de tudo ou nada, onde o Congresso dita os termos.
O que observar daqui para frente
O cenário base para os próximos dois anos é paralisia legislativa seletiva. Projetos de interesse bipartidário — infraestrutura, competitividade com a China, regulação de IA — avançam. A agenda ideológica pura fica travada. Para investidores e empresários, a leitura prática é clara: não precifiquem choques regulatórios vindos do Executivo; monitorem as comissões do Congresso. É lá que a caneta realmente escreve.
