Economia

O segredo por trás do caos nas contas de 11 cidades paulistas…

Mapa de São Paulo destacando 11 cidades em crise fiscal com déficits milionários
Onze municípios paulistas acumulam três anos de contas no vermelho, paralisando serviços essenciais.

Onze municípios do interior de São Paulo encerram o terceiro ano consecutivo com as contas no vermelho, somando déficits que ultrapassam a casa dos milhões e paralisam serviços essenciais. A conta não fecha e o reflexo direto aparece no asfalto esfarelando e no bolso do servidor. Entender a mecânica dessa crise é essencial para quem acompanha a saúde fiscal dos entes federativos.

O mapa do rombo: números que assustam

O déficit orçamentário ocorre quando a despesa autorizada supera a receita efetivamente arrecadada no exercício. Na região de São Carlos e Araraquara, a lista de devedores contumazes inclui pesos-pesados e cidades menores.

  • Araraquara: lidera o ranking negativo com mais de R$ 171 milhões no último ano (acima de 10% da receita).
  • Rio Claro: registra buraco de R$ 74 milhões.
  • Mococa: acumula três anos seguidos de saldo negativo — R$ 32,8 mi (2023), R$ 10,1 mi (2024) e R$ 12,3 mi (2025).
  • Outras nove cidades (São Carlos, Gavião Peixoto, Divinolândia, Nova Europa, Itirapina, Analândia, Santa Lúcia e São José do Rio Pardo) completam o cenário de insolvência técnica.

Quando a infraestrutura cobra a fatura

Em Mococa, o retrato do ajuste fiscal malfeito está nas ruas. No Jardim São Francisco, a troca de tubulação deixou a via Maestro Paschoal Galhardo intransitável. Moradores relatam buracos que viram crateras, calçadas destruídas e a sensação de abandono: equipes aparecem, olham por dez minutos e vão embora.

Na Vila Santa Rosa, a “solução” foi cobrir buracos com terra. Resultado: poeira na seca, erosão na chuva e trincas aparecendo nas paredes das casas. O medo de interdição imobiliária é real. Para completar, na rua Rio Grande do Sul, o refluxo de esgoto em dias de tempestade virou rotina, tornando residências inabitáveis pelo mau cheiro.

A anatomia do déficit: não é só falta de dinheiro

O professor Álvaro Martim Guedes (Unesp) faz a analogia do cartão de crédito: a fatura veio R$ 1.200, mas a conta tem R$ 600. O déficit orçamentário é a diferença entre o compromissado e o entrado no caixa no período. Não significa calote imediato, mas sinaliza gestão de risco elevada.

O nó górdio é a baixa autonomia financeira. Municípios dependem de repasses (FPM, ICMS, verbas federais) e têm pouca margem para criar receitas próprias (IPTU, ISS, taxas). Ajustar o custeio — folha, contratos, previdência — exige tempo político e técnico que prefeitos nem sempre têm.

O custo humano: servidores como variável de ajuste

O desequilíbrio bate na folha de pagamento. Em Mococa, cerca de 1.942 servidores convivem com salários parcelados em três vezes desde outubro do ano passado. A imprevisibilidade — “não sabe quanto vai receber, nem qual porcentagem” — destrói o planejamento familiar e a motivação.

O sindicato judicializou: acionou o Ministério Público (MP-SP) e a Justiça do Trabalho cobrando regularização dos vencimentos e depósitos do FGTS em atraso. A entidade denuncia a ausência de plano de contingência por parte do Executivo, transformando o atraso em rotina administrativa.

O que diz quem gestiona (e quem fiscaliza)

A Prefeitura de Mococa afirma trabalhar na redução do déficit e nega salários pendentes no momento, mas confirma atrasos no FGTS sem apresentar cronograma de quitação. Promete inserir o asfaltamento do Jardim São Francisco no cronograma de obras.

A Sabesp, sobre o refluxo de esgoto, alega sistemas independentes e culpa chuvas intensas. O MP-SP confirmou o recebimento das denúncias e acompanha as ações trabalhistas em andamento.

O que observar daqui para frente

A combinação de déficit estrutural, dependência de transferências e rigidez de despesas (pessoal e previdência) tende a manter o cenário de penúria nos próximos ciclos orçamentários. Para investidores e gestores, três indicadores merecem monitoramento contínuo:

  • Evolução da Receita Corrente Líquida (RCL) versus despesa com pessoal (Limite Prudencial da LRF).
  • Capacidade de investimento próprio (inversão da curva de custeio).
  • Desfecho das ações judiciais sobre FGTS e salários — sentenças podem impor sequestro de verbas federais, agravando o caixa.

Enquanto a equação política não permitir cortes reais ou aumento de base tributária local, o asfalto seguirá esfarelado e a folha, parcelada. A sustentabilidade fiscal municipal no Brasil passa, necessariamente, por uma revisão do pacto federativo — e isso não depende só do prefeito.