Internacional

COP31 em Antália: O racha que pode apagar o brilho verde do Brasil

Presidente Lula discursa na abertura da COP31 em Antália, Turquia, ao lado de Marina Silva
Lula chega à COP31 em Antália como líder ambiental, mas comitiva revela contradições na política climática brasileira

A COP31 abre as portas nesta segunda-feira (9) em Antália, na Turquia, com o presidente Lula desembarcando no dia seguinte para ocupar o centro do palco. Ele chega credenciado como tetracampeão das urnas e aclamado como líder ambiental, mas a comitiva que o cerca conta uma história bem diferente da que será vendida nos discursos oficiais.

Enquanto Lula e a ex-ministra Marina Silva — a única figura da política nacional com prestígio global construído por mérito próprio, sem atalhos judiciais — posam para as fotos, dois ministros-chave operam nos bastidores uma agenda que contraria frontalmente o discurso da transição ecológica.

Os homens do fósseis no comando da energia

Rui Costa deixou a Casa Civil para disputar o Senado pela Bahia, estado governado pelo PT há quase duas décadas. O currículo do seu reduto eleitoral, porém, pesa contra a narrativa verde: a Bahia liderou a letalidade policial em 2025, com 1.570 mortes, e registrou a maior destruição da Mata Atlântica no mesmo ano, somando 176 km².

No Ministério de Minas e Energia, Alexandre Silveira (Centrão) não candidatou-se, preferindo manter o controle da pasta onde celebrou recordes de produção de petróleo em 2026. Ao lado do carvão e do gás natural, o óleo forma o trio responsável por 75% das emissões globais de gases do efeito estufa. Lula, assumidamente desenvolvimentista, celebra o pré-sal e a margem equatorial, tendo chegado a classificar a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, como a “rainha do Brasil”.

O contraponto nos números: o que a floresta esconde

Não se pode negar o resultado tangível da gestão ambiental recente. Sob Marina Silva, o desmatamento na Amazônia caiu 71% no terceiro mandato, atingindo em 2025/26 o menor patamar da série histórica: 3.335 km². No Cerrado, a queda levou a cifra a 5.516 km².

Esse esforço inverteu a lógica das emissões nacionais. Diferente da média mundial — onde energia domina —, o Brasil emite 44% de seus gases pelo desmatamento (contra 11% global), 29% pela agropecuária e apenas 19% por energia. Contendo a motosserra, o governo reduziu em 6% a participação brasileira na poluição climática total em 2025.

  • Amazônia (2025/26): 3.335 km² desmatados (mínima histórica)
  • Cerrado (2025/26): 5.516 km² desmatados
  • Queda total emissões (2025): 6% na fatia brasileira
  • Perfil emissor: 44% Desmatamento | 29% Agro | 19% Energia

O teste real: a montagem do quarto mandato

A conferência na Turquia é apenas o prólogo. A definição real da política ambiental para os próximos anos acontecerá nas próximas semanas, com a composição do ministério do quarto mandato. Costa e Silveira já articulam, como no ciclo anterior, para impedir a permanência de Marina Silva à frente do Meio Ambiente.

Se a dupla mantiver a influência no Palácio do Planalto ou se a ex-ministra não retornar, o sinal ao mercado será inequívoco: a prioridade migrará para setores intensivos em recursos, como data centers — descritos como “sorvedouros de água e energia limpas” —, em detrimento da preservação.

O entrave legislativo e o cenário de fumaça

Mesmo com vontade política, a execução esbarra no Congresso. A atual composição parlamentar é majoritariamente alinhada ao agronegócio, com viés direitista e resistência histórica a pautas fundiárias e indígenas. Essa correlação de forças torna a manutenção das taxas de desmatamento em queda uma tarefa de alta complexidade, independentemente de quem ocupe o ministério.

O autor desta análise previa, às vésperas da eleição, que ambos os cenários — vitória da extrema-direita ou de Lula — levariam a incêndios e fumaça, apenas em velocidades diferentes. Com Lula vitorioso, a “versão lenta” do desastre está em curso, alimentada pela dificuldade de frear a devastação com um Legislativo hostil.

O que observar daqui para frente

O fechamento da COP31 será apenas um intervalo. Os investidores e gestores devem monitorar três variáveis decisivas nos próximos 60 dias: a confirmação (ou não) de Marina Silva no ministério; o plano de negócios da Petrobras para a margem equatorial, que testará os limites do discurso climático; e a tramitação de projetos no Congresso que flexibilizem licenciamento ou anistiem desmatadores. A coerência entre o que se fala em Antália e o que se decide em Brasília ditará o prêmio de risco do Brasil na economia verde global.