Economia

Lula tem 48% de aprovação, mas o que inquieta o mercado está nas entrelinhas

Lula discursa com gráficos de aprovação 48% e fim da escala 6x1 em destaque
Pesquisa Quaest mostra aprovação de Lula em 48% e fim da escala 6x1 como prioridade popular.

Pesquisa Quaest divulgada neste domingo (8) coloca a aprovação do governo Lula em 48%, contra 44% de reprovação — um empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos. O número por si só já desenha um país dividido, mas o dado que deveria acender o alerta de todo investidor e empresário está na lista de prioridades que a população exigiu.

Entre as demandas mais citadas, o fim da escala 6×1 aparece no topo. A medida, se implementada nos moldes defendidos por sindicatos, impacta diretamente a folha de pagamento, a produtividade e a competitividade de setores que empregam milhões. Não é apenas uma pauta trabalhista: é um sinal de pressão por custos maiores num momento em que o PIB ainda patina.

O que o eleitor quer — e o que isso custa

O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 30 de outubro e 2 de novembro. Nível de confiança de 95%. A amostra reflete o termômetro real das ruas após as eleições municipais. Veja o que apareceu no topo da agenda:

  • Fim da escala 6×1 — jornada de trabalho com apenas um dia de folga semanal
  • Isenção de impostos na cesta básica — renúncia fiscal direta
  • Valorização do salário mínimo — reajuste acima da inflação
  • Pacto contra feminicídios — demanda por segurança pública e justiça

Cada item da lista carrega uma fatura. A isenção na cesta básica, por exemplo, exige compensação no Orçamento — o que reabre o debate sobre meta fiscal e arcabouço. O salário mínimo indexado à inflação mais PIB pressiona a Previdência e o funcionalismo. O mercado já precificou parte disso, mas a velocidade de implementação é a variável que ninguém controla.

Otimismo e preocupação: um raio-X do risco Brasil

Pela primeira vez desde dezembro de 2022, o otimismo (44%) quase empata com a preocupação (48%). A diferença de quatro pontos é a menor da série. Quem vê o copo meio cheio cita defesa da democracia, fortalecimento de programas sociais e regulação de bets e redes sociais. Quem vê o copo meio vazio aponta três pilares: economia, dívida pública e juros; violência e crime organizado; corrupção.

Para o setor produtivo, o recado é claro: a agenda microeconômica — regulação de apostas, marco das redes, reforma tributária em andamento — gera expectativa positiva. Já o macro — juros, dívida, câmbio — segue como o maior vetor de incerteza. Não por acaso, o Boletim Focus projeta Selic a 11,75% no fim de 2024, com viés de alta.

O eleitor torce, mas cobra resultado

Noventa e quatro por cento dos entrevistados dizem torcer para que Lula faça um bom governo. O percentual é idêntico ao registrado logo após a eleição de 2022. A diferença é que, dois anos depois, a paciência encurtou. A aprovação oscilou, a reprovação subiu, e a cobrança por entregas concretas — emprego, renda, segurança — migrou do discurso para a urna.

Essa torcida majoritária é um ativo político. Mas ativos se depreciam sem fluxo de caixa. O governo tem até a próxima pesquisa para transformar intenção em indicador. O PIB do terceiro trimestre, a taxa de desemprego de outubro e a arrecadação federal de novembro serão os primeiros testes de realidade.

O que observar nas próximas semanas

Três movimentos vão ditar o humor do mercado e a governabilidade no curto prazo:

  • Tramitação da regulamentação da reforma tributária — o texto que sai do Congresso define quem paga a conta da isenção na cesta básica
  • Projeto que acaba com a escala 6×1 — se avançar na Câmara, força o governo a se posicionar entre base sindical e setor produtivo
  • Comunicação do Banco Central — a ata do Copom e as falas de Campos Neto sinalizam se a alta de juros continua ou pausa

A pesquisa não elege nem derruba governo. Ela apenas expõe a fatura que a sociedade apresentou. Quem paga — e como — é a negociação que começa agora.