A disputa pela presidência do Senado expõe um tabuleiro onde nem governo nem oposição têm maioria absoluta. Quem controlar a pauta da Casa dita o ritmo das pautas mais sensíveis do país — anistia a condenados por tentativa de golpe e impeachment de ministros do STF.
O resultado das urnas forçou um recuo tático. A direita, com 29 senadores só no PL, percebeu que o extremismo não sustenta governabilidade. A esquerda, por sua vez, perdeu o ímpeto de 2022. O jogo agora é de sobrevivência institucional.
O primeiro teste real do novo Congresso
Dos 81 senadores empossados, 40 estreiam no mandato e 14 retornaram. Essa renovação de 66% altera o cálculo de poder. No primeiro turno da eleição presidencial, a oposição sentiu o gosto da dianteira. No segundo, o governo recuperou fôlego parlamentar. O Senado, onde a direita tem peso proporcional maior, virou o palco decisivo.
Duas pautas concentraram a atenção do mercado e dos articuladores políticos:
- Anistia aos condenados pelo 8 de janeiro — bandeira que mobiliza a base bolsonarista, mas assusta investidores pela insegurança jurídica.
- Impeachment de ministros do STF — instrumento de pressão que, se acionado, acende alerta nas agências de rating e no câmbio.
Por que a oposição precisou recuar do “tudo ou nada”
A derrota na eleição presidencial funcionou como freio de arrumação. Teorias conspiratórias sobre urnas perderam tração entre parlamentares que precisam entregar resultados aos seus estados. O “manual do golpismo” virou risco eleitoral para 2026.
Com isso, a estratégia mudou. Em vez de confronto frontal, a oposição lançou duas candidaturas complementares: Rogério Marinho (PL-RN), articulador com trânsito no Centrão, e Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra com perfil técnico e diálogo no agronegócio. Ambas evitam o rótulo de extremistas.
O cálculo por trás das candidaturas duplas
A tática serve a três propósitos simultâneos:
- Dividir o voto governista no primeiro escrutínio, forçando segundo turno.
- Manter a pauta da anistia e do impeachment viva, mas em “banho-maria” — sem votações precipitadas que unificariam a base do governo.
- Preservar capital político para negociações setoriais (orcamento, indicações, medidas provisórias).
Não há garantia de vitória. O governo conta com a máquina e o argumento da estabilidade. Mas a oposição ganhou algo raro: tempo de negociação.
O que observar nas próximas semanas
A eleição da Mesa Diretora, prevista para fevereiro, será o termômetro real. Acompanhe três sinais:
- Quantos senadores do PL e PP migram para o bloco governista em troca de comissões e relatorias.
- Se o STF antecipa decisões sobre os processos do 8 de janeiro, tirando oxigênio da pauta de anistia.
- O comportamento do agronegócio e do setor financeiro — principais financiadores de campanha — diante de eventuais radicalizações.
Quem ler apenas as manchetes verá “disputa de poder”. Quem acompanhar os bastidores verá a reconfiguração do risco Brasil para os próximos 24 meses.
