Uma única imagem feita no segundo turno das eleições de 2026 gerou 25 mil curtidas e mais de 1,3 mil comentários em uma só publicação. O fotógrafo Antonello Veneri não imaginava que o clique de um homem correndo para votar em Salvador viraria símbolo nacional — e muito menos que a busca pelo protagonista revelaria uma tradição silenciosa de décadas.
O desfecho dessa história mostra como o jornalismo visual ainda move multidões. Mas o que levou um motorista baiano a virar ícone involuntário da democracia?
O clique que parou a timeline
Em 25 de outubro, Veneri — italiano radicado na Bahia desde 2009 e colaborador de AFP, Reuters, The Guardian e O Globo — posicionou-se no Colégio Estadual Luiz Viana. A escolha não foi aleatória: no primeiro turno, vídeos da abertura dos portões com gritos e correria já haviam viralizado.
Quando as grades se abriram, um homem negro sorriu, ergueu a identidade e correu para a sala de votação. O fotógrafo batizou o registro de “Correndo para e pela Democracia”. Enviou à AFP, publicou nas redes e viu a repercussão explodir: centenas de comentários, nenhum negativo.
“A foto mostra a beleza da democracia sem ser partidária”, resume Veneri. Mas faltava o personagem principal.
Uma semana de caça digital
O fotógrafo lançou uma campanha nas próprias redes. Pediu ajuda, cruzou informações, recebeu dezenas de dicas. Sete dias depois, o mistério tinha nome e sobrenome: Silvio Santos, 54 anos, motorista.
O encontro aconteceu na sexta-feira seguinte, 6 de novembro, na porta do mesmo colégio. Veneri entregou a foto impressa. Silvio, que já vira a imagem no celular, emocionou-se com o papel nas mãos.
Tradição que vem de madrugada
Silvío não correu por impulso. Ele repete o ritual há anos — não sabe precisar quando começou:
- Acorda às 5h30
- Arruma-se com calma
- Chega cedo para ser dos primeiros a votar
- Depois, vai à praia: “dia de eleição sempre faz sol”
“Tradição é tradição”, brinca. Para ele, votar cedo é garantir liberdade pro resto do dia. E valorizar a democracia “com amor no coração”.
Quando a imagem vira ação
O efeito mais relevante aparece nos relatos que Veneri recebeu: pessoas que decidiram sair de casa para votar depois de ver a foto. “Às vezes nos questionamos se a fotografia ainda tem poder. Saber que pessoas foram votar por causa dela mostra que sim”, diz o fotógrafo.
Silvio, agora eternizado na parede de casa — a foto será emoldurada —, resume o sentimento: “Sempre que eu puder, vou votar com a mesma tradição. O pessoal tem que ir mesmo”.
O que observar daqui pra frente
Em um cenário de desconfiança institucional e abstição crescente, o caso reforça dois vetores: narrativas visuais autênticas ainda cortam ruído algorítmico, e rituais individuais — por menores que pareçam — funcionam como gatilhos coletivos. Para comunicadores, marcas e lideranças, a lição está na consistência: Silvio não posou. Ele apenas manteve um hábito. A câmera só registrou.
