Os Estados Unidos dispararam um ultimato direto a Pequim: cumpra o acordo de terras raras ou a frágil trégua comercial desmorona. A cobrança foi feita em uma ligação tensa na sexta-feira (6), mas a resposta chinesa permanece um mistério. O relógio corre contra o prazo de janeiro e o mercado já precifica o risco.
A ligação que elevou a temperatura
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o representante comercial, Jamieson Greer, não usaram meias-palavras com He Lifeng, vice-primeiro-ministro chinês. O comunicado oficial menciona “preocupação com ações recentes” e deixa claro: a continuidade do diálogo depende de resultados concretos e imediatos.
Greer reforçou o recado publicamente no X (antigo Twitter), citando nominalmente três pilares inadimplentes: compras agrícolas, terras raras e minerais essenciais. A linguagem diplomática, segundo analistas, foi “bastante incisiva” — código para: a paciência acabou.
Por que as terras raras travam tudo
O acordo de Busan, selado em outubro de 2025 e prorrogado até janeiro de 2027, previa aumento no fornecimento desses insumos. A realidade, porém, diverge do papel:
- Cumprimento parcial: Pequim entrega apenas dois terços do prometido em terras raras;
- Estagnação: Desde setembro, quando Bessent cobrou He em Nova York, o fluxo não aumentou;
- Efeito cascata: Restrições de ítrito ao Japão secaram estoques de componentes vitais para a indústria de defesa e aeroespacial dos EUA.
Soja até entra no ritmo, mas outros produtos agrícolas e minerais estratégicos seguem travados. Para o setor produtivo americano, não é burocracia: é ruptura de cadeia de suprimentos.
O calendário que dita o jogo
Duas datas concentram a atenção dos estrategistas nas próximas semanas. A primeira é a cúpula da APEC em Shenzhen, onde Trump e Xi devem se encontrar — embora o comércio não seja o prato principal. A segunda, mais decisiva, é o G20 em Miami, dezembro, onde a negociação real deve acontecer.
Entre uma e outra, Bessent e Greer terão encontros presenciais com seus pares chineses. É nessa janela que se define se a trégua vira acordo duradouro ou se retorna ao ciclo de tarifas e retaliações.
Cenários para quem decide capital
Craig Singleton, da Fundação para a Defesa das Democracias, resume o impasse: Washington não negocia novas concessões enquanto as antigas não forem honradas. Se não há consenso sobre o já assinado, prorrogar a trégua torna-se “consideravelmente mais complicado”.
A embaixada chinesa promete resposta “no momento oportuno”, pregando “benefício mútuo”. Mas o mercado sabe: no comércio de alta tecnologia, tempo é a variável mais cara.
O que observar daqui para frente
Monitore três sinais nas próximas duas semanas: anúncio de licenças de exportação chinesas para ítrito e terras raras pesadas; movimentação de estoques no Japão e Coreia do Sul; e o tom dos comunicados conjuntos pós-APEC. Se a China sinalizar flexibilidade real antes de Miami, a janela para acordo estrutural se abre. Caso contrário, prepare-se para volatilidade cambial e reprecificação de risco em cadeias de semicondutores, defesa e energia limpa.
