Justiça

Facção cobra taxa da água e deixa bairros secos: 5 presos e o mapa do medo no Ceará

Polícia prende suspeitos de extorsão de água mineral em Fortaleza, Ceará
Operação desarticula quadrilha do Comando Vermelho que cobrava taxa de depósitos de água na capital cearense.

A polícia desarticulou uma quadrilha que extorquia comerciantes de água mineral em Fortaleza, prendendo cinco suspeitos — entre eles o chefe do esquema, foragido em Horizonte. A operação expõe um padrão que já secou depósitos em três bairros da capital e dois municípios do interior.

O esquema começou no feriado de Finados. Criminosos ligados ao Comando Vermelho determinaram, via ordem vinda do Rio de Janeiro, que cada ponto de venda pagasse taxa para operar. Em dias, seis depósitos no Parque Dois Irmãos ficaram sem produto.

Como a engrenagem funcionava

Investigações da Draco revelam divisão clara de tarefas:

  • Homem de 44 anos (chefe): mandante preso em Horizonte; ficha com homicídio, tráfico, roubo e porte ilegal.
  • Homem de 26 anos: recebia ordens do chefe; antecedentes por porte irregular e tráfico.
  • Homem de 34 anos: comerciante que atuava em conluio, revendendo a água.
  • Dois homens (18 e 34 anos): logística e intimidação direta nos bairros.

Na batida, a polícia apreendeu 80 garrafões de 20 litros, três carros, uma carroça, celulares e dinheiro em espécie. Todos autuados em flagrante pela nova Lei Antifacção — domínio social estruturado.

O efeito cascata: onde mais a água sumiu

Após a denúncia no Parque Dois Irmãos, relatos idênticos pipocaram em Passaré e Manuel Dias Branco. No interior, Meruoca (250 km de Fortaleza) e Caridade (97 km) vivem o mesmo roteiro.

Em Meruoca, moradores recorrem a poços e chafarizes. A água não é potável: precisa ferver antes do consumo. “Quem não tem poço vai pro chafariz. Às vezes falta lá e bebe do açude mesmo. Fica doente”, relata um morador sob anonimato.

Caridade repete 2025: em março, a cidade ficou 90% sem internet após facção romper cabos de provedores. Agora, o alvo é a hidratação básica.

O que a investigação aponta para os próximos dias

A SSPDS confirma que a Draco investiga mensagens circulando em redes sociais com ameaças e cobranças. PM faz patrulhamento ostensivo nas áreas citadas; setores de inteligência cruzam dados para mapear ramificações.

O chefe preso em Horizonte comandava a capital à distância — sinal de que a estrutura não se dissolve com cinco prisões. Novas ordens podem surgir de outros presídios ou de fora do estado.

O que observar daqui pra frente

Três variáveis definem se o abastecimento normaliza ou o cerco aperta: (1) velocidade das investigações para prender intermediários ainda soltos; (2) resposta do varejo — se comerciantes voltam a comprar sem garantia de segurança; (3) atuação integrada entre Draco, PM e inteligência para interceptar novas ordens antes que cheguem às ruas. O preço do garrafão, hoje inexistente nas prateleiras, será o termômetro mais rápido.