O Banco Central do Paraguai confirmou a devolução de R$ 880 milhões (US$ 160 milhões) a 1,2 milhão de correntistas do Ueno Bank, marcando o primeiro grande passo na contenção da crise de solvência que abalou o sistema financeiro local. O volume atende a 41% da base total de 2,9 milhões de clientes — número equivalente a quase 20% da população do país. Mas a operação expõe um detalhe crítico: quem ultrapassou o teto de garantia segue sem previsão de reaver o excedente.
Como funcionou o escalonamento dos pagamentos
A liberação ocorreu em duas frentes coordenadas pelo Fundo de Garantia de Depósitos (FGD). Na quinta-feira (5), receberam os clientes com saldos de até R$ 8.800. Na etapa seguinte, o pagamento contemplou quem tinha entre R$ 8.800 e R$ 200,8 mil — limite máximo coberto pelo fundo.
Segundo o presidente interino do BC paraguaio, Pedro Acosta, e o presidente do FGD, José Maciel, o mecanismo tem fôlego para cobrir 97% dos depositantes. O problema concentra-se nos 3% restantes, cujos valores excedem a proteção legal e dependem agora do balanço definitivo da Superintendência de Bancos.
O tamanho do buraco além da garantia
O índice de solvência do Ueno despencou para 5,56%, menos da metade do piso regulatório de 12%. Investigções apontam falhas na avaliação de risco de crédito, inconsistências nos demonstrativos usados para aprovar empréstimos e operações com empresas ligadas aos controladores.
- Empréstimos a partes relacionadas foram identificados pela gestão anterior do BC
- O banco administra US$ 850 milhões (≈ R$ 4,7 bi) em recursos públicos
- Há valores do Instituto de Previdência Social em custódia
A exposição a fundos de aposentadoria eleva o risco sistêmico e pressiona por uma resolução rápida.
Crise institucional: do banco ao palácio presidencial
A derrocada do Ueno não ficou restrita ao balanço patrimonial. O ex-presidente Santiago Peña foi preso na sexta-feira (6), horas após o Congresso aprovar seu impeachment. Peña era ex-investidor da holding controladora e nomeou, em 2023, Carlos Carvallo — então CEO do banco — para presidir o Banco Central.
Carvallo renunciou ao cargo nesta semana e também teve ordem de prisão expedida. A proximidade entre poder político e a gestão do banco digital é peça central nas investigações em curso.
Reflexos imediatos para investidores brasileiros
A Câmara de Comércio Brasil-Paraguai já reporta queda na procura por negócios no país vizinho. A incerteza regulatória e a percepção de fragilidade na supervisão bancária travam decisões de alocação de capital, especialmente em fintechs e instituições de médio porte.
Para quem tem exposição direta ou indireta ao mercado paraguaio, o sinal é de cautela: a liquidação de ativos do Ueno e a definição do haircut para credores não garantidos ditarão o ritmo de normalização.
O que observar nas próximas semanas
A divulgação do balanço definitivo pela Superintendência de Bancos é o próximo gatilho relevante. Ele determinará a taxa de recuperação para depósitos acima de R$ 200,8 mil e a necessidade — ou não — de aporte adicional do FGD. Paralelamente, a nomeação do novo presidente do BC paraguaio e eventuais mudanças na regra de solvência mínima sinalizarão se o arcabouço regulatório será endurecido. Investidores e empresários devem monitorar também a destinação dos recursos públicos sob custódia do banco, pois qualquer atraso na devolução ao Instituto de Previdência Social amplificaria a crise social e política.
