Duas das maiores big techs chinesas lançaram, em 48 horas, modelos de inteligência artificial capazes de executar tarefas complexas sem supervisão humana. O movimento acontece enquanto o governo tenta conter uma onda de desemprego jovem que já beira os 19%.
A Meituan estreou o LongCat-2.5, focado em ciclos longos de programação. Dois dias depois, a Tencent revelou o Hy4, primeiro sistema da empresa que controla mouse e teclado sozinho. Isolados, parecem anúncios técnicos. Juntos, expõem a corrida por automação de mão de obra qualificada — justamente o perfil que Pequim mais teme perder.
O alerta vermelho do Conselho de Estado
Duas semanas antes dos lançamentos, o Conselho de Estado publicou diretriz sobre IA e emprego. O documento pede “prudência no alcance, intensidade e ritmo” da tecnologia em setores intensivos em mão de obra. Não tem força de lei, mas exige avaliação de impacto no emprego para projetos que dependem de licença — como táxis autônomos — e recomenda o mesmo critério para demais áreas.
Às empresas, sugere período de amortecimento, aviso prévio a afetados e requalificação profissional. A linguagem oficial fala em desenvolvimento “amigável ao emprego”, termo ecoado pelo economista Cai Fang em editorial do jornal da Escola Central do Partido.
Números que explicam o medo de Pequim
- 18,9%: desemprego entre jovens de 16 a 24 anos fora da escola (agosto/2024)
- 12,7 milhões: recém-formados entrando no mercado no mesmo mês
- 25 mil yuan (R$ 20,5 mil): salário do supervisor demitido em Hangzhou
- 15 mil yuan (R$ 12,3 mil): contraproposta recusada antes da demissão
- 260 mil yuan (R$ 213 mil): indenização mantida pela Justiça
O caso Zhou: quando a IA vira motivo de demissão real
Em janeiro de 2025, às vésperas do Ano Novo Lunar, um supervisor de 35 anos em Hangzhou — identificado apenas como Zhou — foi demitido após recusar corte salarial de 40%. A alegação da empresa: a IA já realizava o trabalho dele, que consistia em auditar respostas de modelos generativos.
Zhou venceu na arbitragem trabalhista e em duas instâncias judiciais. O tribunal manteve a indenização de 260 mil yuan. O caso só chegou à Justiça porque havia contrato formal e demissão por escrito — rastro documental que Pequim consegue enxergar e corrigir.
O buraco que a orientação não cobre
A diretriz de outubro foca em projetos que exigem licença: robotaxis, fábricas têxteis, linhas de montagem. Os modelos lançados agora miram programadores e analistas júnior — setores sem exigência de licença e fora do radar oficial.
O padrão mais comum não é demissão declarada, mas a vaga de entrada que deixa de ser aberta. Essa perda aparece apenas de forma indireta nas estatísticas de desemprego jovem. O que o governo oferece, por ora, são cursos de IA e novas profissões como “treinador de modelos”.
O que observar nos próximos meses
A tensão entre velocidade da inovação e estabilidade social deve ditar os próximos passos regulatórios. Empresas globais que operam na China ou competem com players chineses precisam monitorar: (1) se a orientação ganha força de lei e sanções; (2) como o mercado de trabalho jovem reage à escassez de vagas de entrada; (3) se outros países adotam frameworks semelhantes de “amortecimento” tecnológico. O caso chinês virou laboratório global — e o relógio corre contra legisladores de todo o mundo.
