Cultura

O segredo sujo da indústria do som: estudo expõe racismo técnico e salarial

Profissionais negros em estúdio de áudio: estudo revela racismo técnico e salarial na indústria do som
Dossiê "A Cor do Som" expõe como a neutralidade técnica esconde paradigmas coloniais no áudio brasileiro.

Um dossiê inédito revela que a “neutralidade técnica” do áudio no Brasil esconde um paradigma colonial que silencia vozes negras e achata salários. O estudo A Cor do Som, lançado nesta semana, mapeou como estúdios, produtoras e agências operam filtros invisíveis que definem quem cria, quem executa e quem lucra.

A pesquisa ouviu 24 profissionais entre novembro de 2025 e março de 2026. O recorte: 18 trabalhadores negros das áreas técnica e criativa, quatro acadêmicos e duas lideranças do debate racial. Não há amostragem estatística — o valor está na profundidade dos relatos.

O mito da “higiene sonora” que apaga a periferia

Engenheiros de som recebem manuais que determinam: ruído de rua, batucada, fala popular são “sujeira” a ser removida. O padrão aceito é europeu, estéril, desprovido de marca cultural afro-brasileira.

“Operadores seguem uma cartilha que aponta para o som mais higienizado possível”, diz o dossiê. Na prática, isso significa apagar a acústica da praça, do terreiro, da quebrada — exatamente onde a maioria da população negra vive e produz cultura.

O conceito não é novo. Lélia Gonzalez (1935-1994) cunhou Pretuguês para nomear o português marcado por fonética e sintaxe africanas: problema virando probrema, falha virando faia. O estudo mostra que a indústria trata essas variações como erro, não como riqueza linguística.

Dinheiro, poder e a porta dos fundos

O racismo não fica só no áudio final. Ele está na folha de pagamento e no organograma. Os depoimentos desenham um padrão claro:

  • Profissionais negros ganham menos que brancos em funções idênticas;
  • São contratados porque aceitam remunerações menores;
  • Têm dificuldade de cobrar valores compatíveis com a qualificação;
  • Precisam produzir o dobro para ter a metade do reconhecimento;
  • Assinam projetos decisivos mas não ocupam cadeiras de decisão.

Um diretor criativo relatou: fazia produção de palco, edição, captação, atendimento. Pediu salário condizente. Foi demitido por e-mail. Substituído por uma influenciadora branca sem formação técnica.

Outro profissional, responsável pelo desenvolvimento de um projeto inteiro, era a voz menos ouvida nas reuniões. “Tinha que brigar para provar que sabia do que falava.”

Braço, não cabeça: a segregação funcional

Negros são alocados em “trabalhos braçais”: som direto, montagem, assistência. As funções de criação, roteiro, direção, produção executiva — os “lugares pensantes” — permanecem majoritariamente brancas.

“Quando a gente começa no audiovisual, não nos é dada a oportunidade de contar histórias. Por que eu não podia ser produtor?”, questiona um profissional de cinema ouvido pela pesquisa.

O rótulo que engaiola: “profissional negro” vs. “profissional”

Outro mecanismo sutil: a racialização obrigatória do currículo. “Sou o jornalista negro, o roteirista negro, o escritor negro”, resume um entrevistado. A identidade profissional vira adjetivo, nunca substantivo solo.

O efeito colateral: produções lideradas por negros são classificadas como “de nicho” — feitas para público negro apenas. Produções brancas, por outro lado, são tratadas como universais. “Acham que tudo o que pessoas pretas falam só é escutado por pessoas pretas”, denuncia outro depoente.

O que observar daqui para frente

O dossiê não traz recomendações prontas. Seu objetivo é “inquietar” — forçar a cadeia produtiva a revisar manuais técnicos, critérios de contratação, tabelas salariais e critérios de greenlight de projetos.

Para investidores e gestores, o recado é direto: o paradigma atual deixa dinheiro na mesa. Excluir a estética e a narrativa de 56% da população brasileira (dados do IBGE 2022) não é apenas injusto — é mau negócio. O próximo ciclo de editais, licitações e fundos setoriais tenderá a exigir diversidade real, não cosmética. Quem antecipar essa mudança captura valor; quem esperar, corre risco de obsolescência.