O presidente Lula decidiu, mais uma vez, não decidir. Enquanto a bolsa de apostas ferve com nomes como Alckmin, Fonteles, Durigan e Moretti para a Fazenda, o Planalto mantém o roteiro exato de 2022: deixar o tempo correr.
Há dois anos, o petista levou 40 dias após a vitória nas urnas para confirmar Fernando Haddad. O anúncio saiu só em 9 de dezembro. Até lá, o vácuo alimentou ruído, volatilidade e custou caro a quem tentava precificar risco.
O déjà-vu da reunião no Alvorada
Na última semana, economistas e ministros sentaram-se à mesa no Palácio da Alvorada. A pauta? Cenário macro, desafios fiscais, condições para o crescimento. O mesmo script de 30 de novembro de 2022.
Naquela ocasião, estavam André Lara Resende, Nelson Barbosa, Guilherme Mello, Pérsio Arida e Gabriel Galípolo — então cotado para o BNDES. Também compareceram Alckmin, Gleisi Hoffmann, Aloizio Mercadante e o próprio Haddad.
Relatos de ambas as reuniões convergem: nenhuma decisão, apenas diálogo. A diferença está no peso político de cada momento.
O que muda (e o que não muda) na equação
- 2022: governo novo, capital político no auge, mandato recém-conferido nas urnas.
- 2024: governo no meio do mandato, base fragmentada, arcabouço fiscal em teste.
- Constante: Lula controla o relógio e a narrativa.
A polarização interna também se repete. De um lado, a ala que vê no ajuste fiscal uma “cilada” — termo usado por intelectuais de esquerda na Folha à época. Do outro, a necessidade de sinalizar compromisso com as contas para manter juros em trajetória de queda.
A variável COP: Cairo ontem, Baku amanhã
Em 2022, Lula viajou à COP27 no Egito levando Haddad na comitiva. Bastidores confirmam: foi no avião e nos corredores de Sharm El-Sheikh que a escolha se consolidou.
Agora, o destino é a COP29 em Baku, no Azerbaijão. O presidente embarca nos próximos dias. A pergunta que o mercado faz: quem viaja ao lado dele?
Não há, contudo, o frescor de um governo recém-eleito. O capital de confiança foi gasto em medidas como a desoneração da folha, o embate com o Banco Central e a expansão de gastos obrigatórios.
Cenários na mesa dos analistas
Três movimentos são monitorados por gestores e estrategistas nas próximas semanas:
- Manutenção de Haddad com reforço na equipe técnica (secretarias executivas, Tesouro, Receita).
- Troca por nome do PT (Alckmin ou Fonteles) para blindar a ala política.
- Solução técnica de transição (Durigan ou Moretti) ganhando tempo até 2026.
Cada opção carrega custo-benefício distinto para a curva de juros, o câmbio e a relação com o Congresso.
O que observar daqui para frente
O silêncio presidencial não é vazio — é estratégia. Enquanto Lula não fala, o mercado precifica incerteza. A história de 2022 ensina que o anúncio virá no tempo do presidente, não do calendário dos analistas.
Três gatilhos merecem atenção imediata: a composição da comitiva para Baku, eventuais sinais de Haddad em eventos públicos nas próximas duas semanas e a reação da base aliada a qualquer vazamento seletivo.
Quem precisa montar posições ou ajustar carteiras deve lembrar: em 2022, os 40 dias de espera geraram janelas de entrada e saída que só ficaram claras no retrovisor. Desta vez, o relógio já corre.
