A Le Petit Macarons está trocando funcionários por máquinas automáticas para driblar a escassez de mão de obra. O resultado surpreende: a margem de lucro saltou de 10% nos quiosques tradicionais para até 40% nos equipamentos. Mas a estratégia não para por aí — a rede mira o exterior e cem máquinas em dois anos.
A origem da virada: inspiração nos EUA
A ideia nasceu em uma viagem aos Estados Unidos, onde vending machines vendem de bolos a brownies com naturalidade. Roger Coelho, cofundador da marca, percebeu um perfil de cliente que o varejo físico ignorava: quem quer velocidade.
“Tem gente que chega e diz: ‘quero três, não importa o sabor, é para presente e estou com pressa'”, relata. A solução foi criar coleções pré-selecionadas — frutados, chocolates, clássicos — e deixar a escolha na tela.
Matemática que convence: aluguel cai de R$ 7 mil para R$ 1 mil
O fator decisivo, no entanto, foi a conta no fim do mês. Um quiosque exige, no mínimo, três atendentes e um ponto com aluguel a partir de R$ 7.000. A rentabilidade líquida costuma ficar na casa dos 10%.
Já a máquina ocupa espaços menores — aluguel médio de R$ 1.000 — e não demanda equipe fixa. Um único funcionário consegue abastecer dezenas de equipamentos. Com essa estrutura, a margem pula para a faixa de 30% a 40%.
Em alguns casos, o lucro absoluto de uma única máquina já supera o de um quiosque completo.
- Quiosque: 3+ funcionários | Aluguel ~R$ 7.000 | Margem ~10%
- Vending Machine: 0 funcionários dedicados | Aluguel ~R$ 1.000 | Margem 30%-40%
Medo dos franqueados vira oportunidade de venda cruzada
Houve resistência inicial. Franqueados temiam que as máquinas canibalizassem as vendas dos pontos físicos. A realidade mostrou o oposto.
O cliente experimenta um sabor na máquina — framboesa, pistache, amora — e sente falta de outro que provou antes, como bergamota. Como a máquina tem sortimento limitado, ele caminha até o quiosque. Lá, acaba levando não só o sabor desejado, mas brownie, creme brulé e chocolate ao leite.
O equipamento funciona como isca de experimentação e impulsiona o ticket médio da loja principal.
Fim da escala 6×1 acelera procura por automação
Coelho evita discursos políticos: “Ou você fica chorando ou dá jeito de vender lenço”. A crise de atendentes já existia antes do debate legislativo — a vaga de quiosque é porta de entrada no mercado e ninguém mais quer ocupá-la.
Mas a aprovação do fim da escala 6×1 funcionou como gatilho. A média de uma negociação de máquina por semana saltou para cinco pedidos em apenas 15 dias após a votação. A incerteza regulatória empurrou investidores para o modelo de menor risco operacional.
Expansão internacional e metas agressivas para 2027
A fase de testes começou em 2025 com quatro unidades. A meta interna é fechar o ano com 30 máquinas operando e atingir cem até 2027. Paralelamente, a rede — que hoje soma 28 pontos entre lojas e quiosques — negocia a inauguração da primeira unidade nos Estados Unidos no próximo ano.
O faturamento consolidado (fábrica + varejo) cresceu 13,08% em 2025 sobre 2024. A projeção para 2026 aponta alta adicional de 16,12%.
O que observar daqui para frente
A transição da Le Petit Macarons desenha um caso de escola para o varejo brasileiro: automação não como substituição de pessoas, mas como resposta à ausência delas. O modelo híbrido — máquina na entrada, quiosque na retaguarda — resolve a equação de custo fixo e capilaridade.
Se a rentabilidade de 40% se sustentar em escala, a tendência deve migrar de “experimento de franqueado” para “exigência de contrato”. Investidores do setor de alimentação e shopping centers devem monitorar a ocupação de espaços ociosos com esse perfil de ativo: baixo CAPEX, aluguel barato e gestão remota.
