A onda democrata nas eleições de meio de mandato nos EUA mal chegou ao Congresso e já esbarra em um muro: o poder de veto presidencial. Eleitores foram às urnas exigindo alívio no custo de vida, mas a estrutura de poder em Washington torna essa entrega quase impossível nos próximos dois anos.
O resultado? Frustração garantida para quem apostou na mudança de partido como solução mágica para inflação, juros altos e dívida pública.
Por que o Congresso pouco muda a sua realidade financeira
A Constituição concentra a política comercial e externa na Casa Branca. Tarifas de Trump — que encarecem importados e alimentam a inflação — só caem se o presidente assinar a revogação. O mesmo vale para a guerra no Oriente Médio: uma resolução de poderes de guerra para encerrar o conflito reduziria preços de combustíveis, mas morre na mesa do Salão Oval.
O Legislativo até poderia recuperar a autoridade tarifária, cedida ao Executivo há 90 anos. Na prática, qualquer projeto nesse sentido encontra veto garantido.
Saúde: o aumento que já bateu na porta
Enquanto o debate político gira em branco, os números não mentem. Seguradoras do mercado Obamacare pediram reajuste mediano de 15% nos prêmios para 2025. O gatilho? Subsídios temporários para classe média expiraram, e segurados saudáveis estão saindo do sistema — o que empurra o custo para quem fica.
A multa por não ter seguro, mecanismo criado justamente para evitar esse êxodo, foi extinta no primeiro mandato de Trump. Restaurá-la antes de 2029 é cenário de ficção científica.
O que mais trava (e o que pode avançar nos estados)
- Data centers de IA: Comunidades querem estudos de impacto e que empresas paguem por expansão de energia e água. Trump vê a corrida de IA como prioridade nacional e veta regulações federais.
- Imigração: ICE responde à Casa Branca, não ao Congresso. Quando a opinião pública rejeita repressão visível, a agência apenas troca de tática.
- Política fiscal: Déficit acima de 6% do PIB e dívida acima de 100% do PIB — números que elevam juros de financiamentos imobiliários hoje e ameaçam estabilidade amanhã.
O elefante na sala que nenhum partido quer tocar
Republicanos prometem cortar “desperdício e fraude” — estratégia que o breve Departamento de Eficiência Governamental (Doge) provou ser ilusória. Democratas, por sua vez, evitam propor aumento real de arrecadação. Imposto sobre grandes fortunas tem apelo popular, mas a derrota na Califórnia em 3 de novembro esfriou o ímpeto.
Mesmo se aprovado federalmente, tributar bilionários mal arranha o déficit. A implementação é complexa e a receita, marginal frente ao buraco orçamentário.
O caminho real — e por que ele continua fechado
Os EUA têm carga tributária baixa comparada a pares desenvolvidos. Uma reforma ampla, fechando brechas e elevando alíquotas progressivamente, resolveria o problema estrutural. Mas exige três condições simultâneas: um democrata na Presidência com visão de longo prazo, maioria democrata no Congresso e coragem política para enfrentar o tabu tributário.
Nenhuma das três está no radar para 2025-2026.
O que observar daqui para frente
Juros de longo prazo são o termômetro mais honesto. Se o mercado deixar de acreditar que o fiscal será endereçado, yields de 10 anos voltam a subir — encarecendo crédito imobiliário, corporativo e pressionando valuations de ações. Acompanhe leilões do Tesouro e discursos do Fed: qualquer menção a “dominância fiscal” sinaliza que a conta chegou para quem tem dívida em dólar.
