Economia

O segredo do IPO da Anthropic: US$ 900 bi em gastos e a corrida contra o tempo

Logotipo da Anthropic com gráfico de crescimento e ícones de infraestrutura de IA, representando IPO e investimento de US$ 900 bi
Anthropic busca IPO com valoração de até US$ 1,75 trilhão para financiar mega-investimento em infraestrutura de IA.

A Anthropic protocolou o pedido de abertura de capital para antes do feriado de Ação de Graças nos EUA, mirando uma avaliação de até US$ 1,75 trilhão. O número impressiona, mas esconde uma urgência brutal: a dona do modelo Claude precisa de caixa para bancar um plano de investimento de US$ 900 bilhões em infraestrutura nos próximos anos.

A faixa de preço sugerida — entre US$ 1,25 trilhão e US$ 1,75 trilhão — representa um recuo forte frente aos US$ 2 trilhões sonhados pelos investidores há poucas semanas. Mesmo assim, a operação pode movimentar entre US$ 80 bilhões e US$ 100 bilhões, tornando-se uma das maiores ofertas iniciais da história.

O buraco no orçamento que ninguém ignora

A pressa não é capricho de mercado. A startup carrega cerca de US$ 150 bilhões em caixa e investimentos líquidos, valor que evapora rápido diante da meta de gastos computacionais. A estratégia declarada é levantar o suficiente para nunca mais precisar vender participação acionária.

Em resumo: o IPO não é um evento de liquidez para fundadores, mas uma linha de crédito permanente paga com ações. Se o preço for conservador — algo em torno de US$ 1,5 trilhão, segundo grandes cotistas —, a empresa aceita para garantir o cheque.

O terremoto que derrubou o preço em 30 dias

O cenário virou de cabeça para baixo nas últimas semanas. A combinação de juros altos, medo de bolha em IA e a vitória democrata nas eleições de meio de mandato nos EUA — com promessas de travar novos data centers — provocou um massacre no setor.

  • US$ 3,2 trilhões evaporaram do mercado acionário americano em um único dia (5/11).
  • O Nasdaq despencou 6,4% na mesma sessão.
  • A rival OpenAI cortou sua avaliação alvo de US$ 1,4 trilhão para US$ 1,25 trilhão e reduziu a captação prevista de US$ 30 bi para US$ 20 bi.

Esse ambiente hostil eleva a probabilidade de adiamento nos mercados de previsão, mas fontes próximas à operação garantem: o CEO Dario Amodei topa o desconto para não perder a janela.

Números que sustentam a tese (e assustam os céticos)

Por trás do risco, há tração real. A receita do terceiro trimestre saltou quase 50%, batendo na casa de US$ 17 bilhões. O dado que tem acalmado investidores institucionais, no entanto, é a taxa anualizada (ARR): US$ 81 bilhões em novembro, contra US$ 65 bilhões em julho.

Esse crescimento sugere que a demanda corporativa pelo Claude segue firme, mesmo com a concorrência chinesa e da OpenAI. O JPMorgan marca para 13 de novembro a sessão informativa com potenciais compradores — o primeiro teste real de apetite.

O truque dos “compradores compulsórios”

A engenharia financeira do IPO conta com um aliado mecânico: fundos de índice e grandes gestoras de ativos que não possuem ações hoje, mas serão obrigadas a comprá-las assim que a Anthropic entrar nos principais benchmarks.

Esse fluxo forçado cria um colchão de demanda artificial nos primeiros pregões, reduzindo o risco de estreia fracassada. A meta da companhia é clara: superar o recorde da SpaceX (US$ 1,78 trilhão em junho), embora Amodei tenha dito a aliados que não faz questão de bater Elon Musk.

O que observar daqui para frente

A data de 13 de novembro é o divisor de águas. A reação dos gestores na reunião do JPMorgan ditará se o preço final gruda no teto de US$ 1,75 trilhão ou se acomoda na base de US$ 1,3 trilhão, como preveem os mais céticos. Acompanhe também a divulgação do prospecto definitivo: a omissão da ARR atual no rascunho inicial gerou ruído, e a transparência sobre a queima de caixa mensal será o termômetro real da confiança do mercado.