Lula recebeu economistas e ministros no Alvorada esta semana. O roteiro é idêntico ao de novembro de 2022: ninguém confirma nomes, mas a bolsa de apostas ferve com Alckmin, Fonteles, Durigan e Moretti cotados para a Fazenda. A diferença? Desta vez não há “frescor de governo novo” para embalar a decisão.
Em 2022, o presidente esperou 40 dias após a vitória nas urnas para oficializar Fernando Haddad. O anúncio saiu em 9 de dezembro, depois de uma viagem à COP do Egito onde, nos bastidores, o martelo foi batido. Agora, Lula embarca para a COP da Turquia com o mesmo enredo — mas sem o capital político de um mandato recém-inaugurado.
O déjà vu no Palácio da Alvorada
A reunião desta semana reuniu a nata da equipe econômica e nomes da transição passada. Galípolo, hoje no Banco Central, estava no encontro de 2022 cotado para o BNDES — cargo que acabou com Mercadante. Alckmin, Gleisi e Haddad também repetiram presença. O script não muda: “não houve decisões, apenas diálogo”, segundo relatos de ambas as ocasiões.
O que muda é o peso da cadeira. Haddad carrega agora o desgaste de dois anos de arcabouço fiscal, meta de déficit zero abandonada e embates públicos com o Congresso. Em 2022, era a promessa de um novo começo. Hoje, é a gestão de um legado em construção.
Nomes na roda: quem sobe, quem desce
- Geraldo Alckmin: vice-presidente, articulador político, nome de confiança do presidente
- Rafael Fonteles: governador do Piauí, perfil técnico, aliado de primeira hora
- Dario Durigan: secretário-executivo da Fazenda, “braço direito” de Haddad na operação diária
- Bruno Moretti: subsecretário de política fiscal, arquiteto das contas públicas atuais
Haddad segue no cargo, mas a especulação não para. Cada movimento do presidente — viagens, reuniões, silêncios — vira sinal de mercado. Em 2022, a incerteza durou 40 dias. Desta vez, o relógio corre sem data marcada para o anúncio.
A polarização que não sai de moda
O debate de fundo permanece o mesmo: ajuste fiscal versus políticas sociais. Integrantes da esquerda ainda escrevem que o mandato nas urnas autoriza Lula a “lutar contra a cilada do ajuste”. A diferença é que, em 2022, era retórica de campanha. Em 2024, é dilema de governabilidade com Congresso hostil e arcabouço fiscal sob pressão.
Os economistas ouvidos nas duas reuniões entregaram diagnósticos semelhantes: crescimento com responsabilidade, controle de inflação, espaço para investimento. A execução é que travou.
O que a COP da Turquia pode (ou não) resolver
Lula viaja nos próximos dias. Em 2022, o voo para o Egito selou a escolha de Haddad. Assessores próximos dizem que “não há decisão tomada” e que a agenda climática domina a pauta. Mas o mercado não acredita em coincidências: toda reunião reservada, todo silêncio prolongado, toda viagem presidencial vira peça do xadrez sucessório.
O presidente gosta de deixar o suspense render. Em 2022, a demora serviu para testar reações, medir resistências, construir consenso. Agora, serve para ganhar tempo — ou para evitar que a troca vire confissão de fragilidade.
O que observar daqui para frente
Três sinais valem mais que especulações: (1) se Haddad viaja com Lula à Turquia, a permanência ganha força; (2) se Durigan ou Moretti assumem protagonismo público nas próximas semanas, a sucessão interna acelera; (3) se o presidente marca nova reunião com economistas “de fora” do governo, o leque se abre para nomes de mercado. O relógio corre. Em 2022, Lula teve 40 dias de lua de mel. Desta vez, o prazo é ditado pelo Orçamento, pelo Congresso e pela paciência do mercado.
