Economia

Crise no Ueno: por que empresários brasileiros pisaram no freio no Paraguai…

Sede do Ueno Bank em Assunção com bandeiras do Brasil e Paraguai simbolizando crise bilateral
Intervenção no Ueno Bank congela investimentos brasileiros no Paraguai e expõe fraude no Grupo Vázquez.

A intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, decretada em 3 de novembro, congelou de imediato a onda de expansão de empresas brasileiras no país vizinho. A medida expôs uma fraude no Grupo Vázquez, controlador da instituição, e suspendeu operações — deixando depósitos retidos e planos de investimento em suspenso.

Na semana seguinte à eleição de Lula, a Câmara de Comércio Brasil-Paraguai não dava vazão à procura por assessoria jurídica e contábil. Agora, o telefone parou de tocar.

O efeito “balde de água fria” nos planos de expansão

Jeancarlos Araldi, vice-presidente financeiro da Câmara, resume o cenário: a entidade montou força-tarefa com economistas e advogados para atender associados, mas a maior parte dos afetados diretos são pessoas físicas — não empresas. Ainda assim, o dano reputacional foi instantâneo.

Empresários que já haviam visitado o país, mapeado incentivos e até negociado terrenos decidiram esperar. Luiz Fernando Nóbrega, presidente do Instituto Paulista de Contabilidade, liderou uma comitiva dias antes da crise. O relato: “Muitas pessoas que estariam dispostas a começar a pensar com mais seriedade pisaram no freio, o que é natural”.

O que muda (e o que não muda) para quem já opera lá

Para negócios já instalados, o diagnóstico é de impacto limitado — com ressalvas. Veja o que os especialistas destacam:

  • Exposição direta baixa: poucas empresas brasileiras mantinham conta no Ueno; o banco atendia sobretudo pessoas físicas e trabalhadores de fronteira.
  • Risco indireto real: fornecedores paraguaios com recursos retidos podem atrasar entregas, afetando cadeias de suprimento.
  • Fluxo de caixas alternativos: algumas empresas já reportam recebimento de valores retidos via outras instituições financeiras locais.

Nóbrega reforça: a viagem ao Paraguai mostrou empresas satisfeitas com a decisão de operar no país. Os atrativos estruturais não desapareceram com o escândalo bancário.

Os números que sustentam o interesse de longo prazo

A Lupo inaugurou em junho de 2025 sua primeira fábrica fora do Brasil, em Ciudad del Este. O investimento de R$ 30 milhões criou capacidade para 20 milhões de pares de meias por ano. A conta da companhia: custos de produção pelo menos 28% menores que no Brasil.

A empresa confirma: não mantém relação com o Ueno Bank e as atividades seguem normais.

Dois pilares tributários explicam a atratividade:

  • Lei de Maquila: isenção de impostos para indústrias que produzem no Paraguai e exportam (maioria para o Brasil).
  • Incentivo a bens de capital: importação de máquinas e equipamentos com benefícios fiscais para a produção local.

Luciano Hang, dono da Havan, mantém o plano de abrir a primeira megaloja no país. Em nota, classificou a cobertura do caso como “ideologicamente enviesada” e disse que o pedido de renúncia do presidente Santiago Peña demonstra que “as instituições estão funcionando corretamente”. A busca por terreno continua.

O que observar daqui para frente

A resolução do Ueno Bank ainda está em curso — o BC paraguaio toca o processo de transferência e pagamento de depósitos. A velocidade dessa liquidação ditará a confiança de curto prazo.

Três variáveis merecem monitoramento semanal:

  • Prazo efetivo para restituição de valores a pessoas físicas e jurídicas;
  • Eventual contágio a outras instituições do sistema financeiro paraguaio;
  • Reação do governo Peña: medidas de transparência e reforço de supervisão bancária.

Enquanto isso, a Câmara de Comércio mantém a equipe de plantão. O recado de Araldi é pragmático: “Logo o Paraguai volta a ser uma opção bem forte para ser considerada”. A janela de oportunidade não fechou — apenas ganhou uma trava de segurança extra.