Economia

Passe livre no fim de semana: R$ 12 bilhões vão dar conta do recado?

Ônibus urbano com faixa "Tarifa Zero" em terminal movimentado no fim de semana, símbolo de gratuidade no transporte público
Proposta do governo prevê passe livre nos ônibus urbanos aos sábados, domingos e feriados com verba de emendas parlamentares

O governo Lula quer garantir tarifa zero nos ônibus urbanos aos sábados, domingos e feriados usando R$ 12 bilhões vindos das emendas parlamentares. A conta oficial parece fechada, mas entidades do setor e analistas de mercado veem um buraco que pode passar de R$ 8 bilhões. Quem vai pagar a diferença se a estimativa estiver errada?

De onde sai o dinheiro e como o governo fez a conta

A PEC enviada ao Congresso em outubro vincula 26,8% das emendas de execução obrigatória — previstas em R$ 44,8 bilhões para 2027 — ao custeio da gratuidade. Pela regra, o valor não aumenta a despesa primária nem fere a meta fiscal: apenas muda o destino de recursos já carimbados.

O Ministério das Cidades, em parceria com o Ipea, estudou uma amostra de cem municípios. A conclusão: operar o sistema só nos fins de semana custa cerca de R$ 11 bilhões anuais. Como a quilometragem rodada cai nesses dias, a pasta vê folga no orçamento de R$ 12 bilhões. O custo total da operação nos sete dias da semana giraria em torno de R$ 70 bilhões.

Setor vê rombo de até R$ 8 bilhões na proposta

A NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) discorda frontalmente. Pelos cálculos da entidade, a gratuidade apenas nos ônibus consumiria R$ 17 bilhões por ano. Se incluídos metrôs e trens, a fatura sobe para R$ 20,8 bilhões.

A diferença nasce de premissas distintas. A associação assume que:

  • Domingos têm 45% da demanda de dia útil; sábados, 70%.
  • Experiências passadas mostram que tarifa zero atrai mais passageiros, exigindo 20% mais ônibus em circulação.

Marcos Bicalho, diretor da NTU, admite que os números são aproximados — o país não tem base nacional unificada de dados. Ainda assim, alerta: se o repasse federal não cobrir o custo real, prefeituras terão de escolher entre reduzir a frota (piorando o serviço) ou complementar com subsídios próprios.

Mercado financeiro também alerta para risco fiscal

Para Tiago Sbardelotto, economista da XP, os R$ 12 bilhões cobrem apenas os ônibus. Em estimativa preliminar, garantir a gratuidade em todos os modais exigiria R$ 16 bilhões. “Há risco relevante de o Tesouro ter de aportar recursos adicionais”, afirma.

O analista aponta outro perigo: se custos com combustível, mão de obra e manutenção subirem acima da inflação, o repasse fixo deixa de bastar. O resultado seria degradação do serviço ou pressão por mais verbas federais, elevando o risco fiscal.

João Pedro Leme, da Tendências Consultoria, tem visão mais branda — acha o valor do governo suficiente —, mas destaca o obstáculo político: congressistas tendem a resistir a travar cerca de um quarto das emendas em uma destinação única.

O que ninguém discute: a regulação que falta

Rafael Pereira, pesquisador do Ipea, avisa: sem regras claras, o tamanho do cheque importa pouco. “Pode botar todo o dinheiro do mundo, se não melhorar o serviço nem torná-lo mais inclusivo, é dinheiro que escoa pelo ralo”, resume.

Hoje não existe critério para dividir os recursos entre municípios nem contrapartidas exigidas. Exemplos de exigências possíveis:

  • Proibir redução da frota nos fins de semana.
  • Obrigar revisão de contratos de concessão com metas de qualidade e transparência de custos.

O marco legal do transporte público, aprovado em 2024, já pede dados de bilhetagem, GPS e frota para liberar verba federal. Mas a lei só sugere — não obriga — a melhoria dos contratos com as operadoras. A regulamentação da PEC será o momento de transformar sugestão em regra.

Cidades que já testam a gratuidade

Enquanto Brasília debate, dez das maiores capitais e municípios já oferecem ao menos um dia de passe livre:

  • São Paulo: domingos (11,4 mi hab.)
  • Brasília: domingos e feriados (2,8 mi hab.)
  • Belo Horizonte: domingos e feriados (2,3 mi hab.)
  • Belém: domingos e feriados (1,3 mi hab.)
  • Maceió: domingos e feriados (957 mil hab.)

Há ainda cinco cidades com tarifa zero integral todos os dias — Caucaia (CE), Canoas (RS), Itaboraí (RJ), Luziânia (GO) e Maricá (RJ) —, todas com população abaixo de 360 mil habitantes.

O que observar daqui para frente

A tramitação da PEC no Congresso será o primeiro teste: a resistência parlamentar ao uso das emendas pode alterar o texto ou travar a votação. Se aprovada, a regulamentação ditará se o programa vira política de Estado com qualidade ou apenas subsídio sem contrapartida. Acompanhe a definição dos critérios de rateio e as cláusulas de fiscalização dos contratos — é ali que o dinheiro vira (ou não) transporte público de verdade.