O ministro Edson Fachin, presidente do STF, homologou a delação premiada de João Carlos Mansur, dono da gestora Reag, peça-chave no esquema que teria usado fundos de investimento para lavar propinas pagas por Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A decisão coloca nas mãos da Procuradoria-Geral da República um mapa detalhado de como o dinheiro saiu do Brasil e onde pode estar escondido.
O acordo, assinado diretamente com a PGR sem participação da Polícia Federal, prevê a devolução de ativos desviados e multa de R$ 40 milhões. Mas o valor real da colaboração está nos 17 anexos entregues pelo delator.
O que a delação revela sobre a engenharia financeira
Segundo investigadores, a Reag funcionava como uma “lava-jato” particular: fundos sob sua gestão recebiam recursos do Master e, por meio de operações complexas, encaminhavam valores a agentes públicos e para contas no exterior. Mansur detalhou a mecânica dessas transferências e indicou a localização dos ativos fora do país.
Essa informação é estratégica. Com a localização conhecida, a recuperação dos recursos dispensa a morosa tramitação de tratados internacionais de cooperação jurídica, acelerando o retorno do dinheiro aos cofres públicos.
Políticos citados e as linhas de defesa
A colaboração menciona o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil). Ambos já foram alvo de apurações anteriores ligadas a Vorcaro.
- Jaques Wagner: alvo de busca da PF em junho; nega ter recebido valores do Master, mas admite relação comercial com Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro.
- ACM Neto: relatórios do Coaf apontam recebimento de R$ 3,6 milhões de empresas ligadas ao Master e à Reag. Ele confirma os contratos de prestação de serviços e nega irregularidades.
Até o momento, não há denúncia formal contra os citados com base exclusivamente nos novos depoimentos.
O xadrez da relatoria no Supremo
A homologação por Fachin carrega um componente institucional relevante. O relator natural do caso Master é o ministro André Mendonça, mas ele foi afastado da condução do inquérito por determinação do próprio Fachin em outubro do ano passado, durante a crise aberta pela divulgação de relatório da PF que citava o ministro Alexandre de Moraes.
Fichin manteve a relatoria consigo por 90 dias, prazo que pode ser prorrogado. A validação da delação, portanto, ocorre sob a guarda do presidente da Corte, não do relator original.
Outras frentes: BRB, PCC e a liquidação da Reag
As investigações também conectam Mansur a pagamentos ocultos em imóveis para Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). Paralelamente, a gestora foi alvo da operação Carbono Oculto, que apura lavagem de dinheiro do PCC na economia formal.
Em janeiro de 2026, a operação Compliance Zero mirou o empresário. Logo após, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag, encerrando suas atividades.
O que observar nos próximos passos
A eficácia do acordo depende agora da capacidade da PGR de transformar os anexos em provas robustas para novas denúncias e, principalmente, de efetivar o bloqueio e repatriação dos ativos indicados no exterior. Para o mercado, o sinal é de que a exposição do Banco Master a riscos regulatórios e reputacionais segue alta, com potencial impacto em credores e investidores que ainda mantêm posições vinculadas à instituição.
