Economia

Quebra de banco no Paraguai: 270 mil brasileiros com dinheiro congelado

Fila de clientes preocupados frente ao Ueno Bank fechado no Paraguai, com bandeiras do Brasil e Paraguai ao fundo
Brasileiros afetados pela falência do Ueno Bank aguardam informações sobre devolução de valores retidos

O Banco Central do Paraguai confirmou o início da devolução escalonada de 16 trilhões de guaranis — cerca de R$ 14 milhões — retidos no Ueno Bank, instituição que teve as atividades encerradas nesta semana. A medida atinge diretamente 722 mil correntistas na primeira fase, entre eles milhares de brasileiros que vivem, estudam ou empreendem no país vizinho. Mas a cobertura do fundo garantidor tem teto, e valores acima dele seguem sem definição.

O choque imediato na rotina de quem vive na fronteira

Vinicius Eduardo Nunes saiu do interior de São Paulo para cursar Medicina em Ciudad del Este. A conta no Ueno era o canal para pagar a mensalidade da faculdade. Com o saldo bloqueado, ele tem uma semana para encontrar alternativa sob risco de atraso. “A gente fica desamparado, pensando: o que vamos fazer?”, relata.

Vanessa Monteiro, também estudante de Medicina, tentou sacar o dinheiro na sexta-feira (6) e encontrou as agências lacradas. “Nem deu para entrar”, disse. O metalúrgico Blas Marcos Martinez, de Pedro Juan Caballero, espera recuperar cerca de R$ 1,2 mil, mas diz não entender como será o pagamento: “Falaram em outro aplicativo, outro banco, mas não sabemos se é verdade.”

Empresários relatam efeito cascata nos negócios

O impacto extrapola o varejo. Thayki Morais, médica dona de uma clínica de estética, viu as contas da empresa congeladas. Pacientes estão remarcando procedimentos ou segurando pagamentos porque não conseguem transferir. “Atingiu a clínica e os próprios pacientes”, resume.

Alberto Garay, motorista que faz o trajeto Foz do Iguaçu–Ciudad del Este transportando estudantes, só não parou porque parte dos clientes paga em espécie. “Graças a Deus tinha um pouco em dinheiro vivo. Mas estamos esperando que volte para todo mundo.”

Regras do fundo garantidor: o que está coberto e o que não está

  • Primeira etapa: correntistas com até 10 milhões de guaranis (≈ R$ 8,8 mil) recebem 우선.
  • Teto de cobertura: 228 milhões de guaranis por cliente (≈ R$ 203 mil).
  • Forma de pagamento: depósito em contas de outros bancos, ainda a ser informado individualmente.

Valores acima do limite entram em fila de credores da liquidação judicial — processo que pode levar anos e não garante recuperação integral.

Contexto: por que tantos brasileiros estão expostos

Em 2023, brasileiros foram a nacionalidade que mais solicitou residência no Paraguai. Atualmente, estima-se 270 mil vivendo no país, muitos atraídos por custos menores e facilidade para abrir negócios. A concentração de contas em um único banco digital — popular justamente por atender esse público — ampliou o risco sistêmico.

O que observar nas próximas semanas

O calendário das próximas fases de pagamento ainda não foi divulgado. A clareza sobre o canal de crédito (qual banco, qual aplicativo) e a velocidade da operação ditarão se a confiança retorna ou se a inadimplência cruzará a fronteira. Para quem tem valores acima de R$ 203 mil, a única via realista é acompanhar o processo de liquidação judicial — e, se possível, diversificar a bancarização imediatamente.