Economia

EMS lança 3ª caneta emagrecedora e negocia com o SUS: 250 mil unidades a caminho

Caneta Semaclique da EMS com semaglutida para tratamento de obesidade e diabetes
Nova caneta Semaclique da EMS chega ao mercado com 250 mil unidades previstas

A EMS começa a distribuir esta semana a Semaclique, sua terceira caneta à base de semaglutida, com meta inicial de 250 mil unidades. Paralelamente, a farmacêutica da família Sanchez abriu conversas com o Ministério da Saúde para incluir o medicamento no SUS.

O movimento coloca a empresa em posição inédita: disputar o mercado privado de alto valor e, ao mesmo tempo, tentar emplacar um produto de uso contínuo na rede pública. O desfecho dessa dupla frente vai ditar o ritmo do setor nos próximos trimestres.

O que muda na prateleira das farmácias

A Semaclique chega como versão “clone” da Ozivy, primeira caneta de semaglutida do grupo lançada em 2023. A diferença central está no dispositivo de aplicação: a nova caneta usa um mecanismo de mola que dispensa a agulha visível, o que reduz o desconforto do paciente e, na prática, melhora a adesão ao tratamento.

Outro ponto técnico: a formulação permite armazenamento em temperatura ambiente por até 30 dias após a primeira abertura. A Ozivy exige refrigeração contínua. Para redes de varejo e distribuidores, isso simplifica a logística e reduz perdas por quebra de cold chain.

Números que explicam a aposta

  • 250 mil unidades previstas para o primeiro lote
  • R$ 450 a R$ 520: faixa de preço sugerida ao consumidor final
  • 14 meses: tempo médio de tratamento para perda de peso sustentável
  • 3º lugar: posição da EMS no ranking de faturamento farmacêutico nacional

A projeção interna da companhia é atingir 1 milhão de canetas vendidas em 12 meses, considerando as três versões no portfólio. O mercado brasileiro de análogos de GLP-1 para obesidade movimentou R$ 3,2 bilhões em 2023, com crescimento anual acima de 40%.

A conversa com o SUS e o que está em jogo

Representantes da EMS reuniram-se com a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) em outubro. O pleito: inclusão da semaglutida no protocolo clínico de obesidade grau II e III, com IMC acima de 35 ou 30 com comorbidades.

Hoje, o SUS oferta apenas orlistate e sibutramina para obesidade. A incorporação de um análogo de GLP-1 representaria salto terapêutico, mas o impacto orçamentário é o entrave. Estimativas preliminares apontam custo anual de R$ 1,8 bilhão se 200 mil pacientes forem contemplados — cerca de 0,3% do orçamento total de medicamentos da pasta.

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.

Efeito cascata na indústria nacional

Se a EMS conseguir registro de preço vantajoso junto à CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), a pressão sobre concorrentes como Novo Nordisk e Lilly aumenta. Ambas dependem de importação para abastecer o Brasil. A produção local da semaglutida em Hortolândia (SP) dá à EMS margem para negociar preço-teto mais baixo.

Isso pode forçar redução de preços no varejo privado, beneficiando quem paga do bolso. Por outro lado, distribuições regionais menores alertam para risco de desabastecimento pontual se a demanda do SUS consumir parcela relevante da capacidade produtiva.

O que observar daqui para frente

Três marcos definem o cenário até março de 2025: a publicação do parecer da Conitec, a definição do preço-teto pela CMED e a velocidade de adoção da Semaclique pelas grandes redes de farmácia. Quem acompanha o setor deve monitorar também a taxa de persistência no tratamento — historicamente abaixo de 40% ao final do primeiro ano — pois ela dita a receita recorrente real, não apenas o sell-in inicial.