O colapso do sexto maior banco do Paraguai arrastou o presidente Santiago Peña para um processo de impeachment e deixou mais de um milhão de clientes sem acesso aos depósitos. A crise, que começou com suspeitas de empréstimos irregulares a empresas do grupo controlador, expôs falhas na supervisão e abalou a narrativa de estabilidade que o país vendia a investidores estrangeiros.
O que transforma uma intervenção bancária em crise política? A resposta está na teia de conexões entre o poder econômico e o Palácio de los López.
O banco que cresceu demais, rápido demais
O Ueno Bank nasceu como uma fintech voltada para a inclusão financeira. Em poucos anos, tornou-se a porta de entrada no sistema bancário para parcelas da população historicamente excluídas. A estratégia digital agressiva, somada à fusão com o Visión Banco em 2024, catapultou a instituição para a sexta posição em depósitos no ranking nacional.
O crescimento, porém, teve um combustível peculiar: recursos públicos. Após a posse de Peña em 2023, depósitos do setor público no Ueno saltaram para cerca de 5 trilhões de guaranis — o equivalente a R$ 4,78 bilhões —, representando 29% do total captado pela instituição em junho passado.
Sinais vermelhos ignorados
Em 2025, uma equipe do BID Invest visitou a sede do banco em Assunção, apelidada de “The Matrix” pelo padrão de startup bilionária. O que encontraram gerou desconforto imediato: almoço com chefs particulares em sala privativa, estrutura de custos incompatível com o perfil de clientela e, o mais grave, indícios de empréstimos a empresas do Grupo Vázquez — holding do controlador Miguel Vázquez — acima dos limites legais e sem classificação de risco adequada.
A taxa de inadimplência reportada de 2%, metade da média dos concorrentes, soou como mais um alerta. O BID Invest, que havia concedido empréstimo de quase US$ 20 milhões em 2024, não recuperou integralmente o valor.
A intervenção e o efeito dominó
Na madrugada de 3 de setembro, reguladores declararam o banco insolvente. A operação na mansão de Vázquez revelou frota de luxo — Porsche, Bentley, Mercedes-Benz — avaliada em mais de US$ 1,4 milhão. O controlador foi preso. Dois executivos com passagem pelo mercado brasileiro também foram detidos.
O impacto foi imediato:
- Mais de 1 milhão de paraguaios (em população de 6,4 milhões) tiveram contas congeladas
- Títulos de dívida emitidos em março a US$ 350 milhões caíram de US$ 0,85 para menos de US$ 0,10
- Jogadores da seleção nacional, patrocinada pelo banco, buscam recuperar milhões em depósitos
- O seguro de depósitos cobre até US$ 38 mil; lei aprovada às pressas determina pagamento acelerado
O preço político da crise
Peña, que um mês antes garantia não haver motivos para preocupação, ofereceu renúncia na quinta-feira (5) após a Câmara aprovar impeachment por unanimidade. O Senado rejeitou o pedido de adiamento da defesa. O presidente do Banco Central, ex-funcionário do Ueno, pediu demissão.
O golpe decisivo veio do interior do próprio partido. Horacio Cartes, ex-presidente e mentor político de Peña, defendeu publicamente o impeachment. A relação entre os dois vinha se deteriorando desde que o atual mandatário começou a construir base própria dentro do Partido Colorado, que domina o país há quase sete das últimas oito décadas.
O que está em jogo para investidores
O Paraguai vinha sendo apresentado pelo governo Trump — via Marco Rubio e Scott Bessent — como modelo de alinhamento geopolítico na região, sobretudo pela lealdade a Taiwan frente à expansão chinesa. Bessent reuniu-se com Peña em Washington há duas semanas. A crise expõe a fragilidade institucional por trás da vitrine.
Luis Breuer, ex-diretor do Banco Central paraguaio e do FMI, resume o risco: “Se o país entrar em período de instabilidade política, com o próprio vice-presidente sob questionamentos, o impacto será sistêmico, afetando a todos, não apenas depositantes de uma instituição.”
O que observar nas próximas semanas
A velocidade do pagamento do seguro-depósito testará a capacidade operacional do Banco Central. No front político, a definição sobre a renúncia ou destituição de Peña ditará o rumo da sucessão — e a reação dos mercados aos títulos soberanos paraguaios. Para quem tem exposição ao país, o monitoramento da coesão partidária no Congresso e da resposta do sistema financeiro ao estresse de liquidez deixa de ser opcional e passa a ser obrigatório.
