O troféu que será erguido pelo vencedor do GP de São Paulo neste domingo (8) em Interlagos não é apenas um objeto de premiação: é uma demonstração de engenharia de ponta fabricada em Joinville (SC). A peça carrega um mapa do Brasil invisível a olho nu e usa a mesma tecnologia de manufatura aditiva em metal empregada em supercarros europeus.
Por que a principal categoria do automobilismo mundial escolheu uma empresa catarinense para criar o símbolo máximo da etapa brasileira? A resposta passa por uma combinação rara de domínio de materiais exóticos e capacidade de execução em prazos implacáveis.
A engenharia por trás da peça: titânio e atmosfera controlada
A Btomec, sediada na maior cidade de Santa Catarina, foi a selecionada para transformar o conceito em realidade. A matéria-prima escolhida foi o titânio, metal leve e resistente padrão na Fórmula 1, processado via fusão seletiva a laser (SLM) em câmara de argônio.
O processo elimina a oxidação e garante integridade estrutural impossível de atingir com usinagem convencional. Camada a camada, o pó metálico foi sinterizado até formar a geometria complexa que inclui curvas internas e a silhueta do mapa nacional — esta só revelada quando a peça gira sob a luz.
- Material: Liga de titânio grau aeroespacial.
- Tecnologia: Impressão 3D em metal (SLM) com atmosfera inerte de argônio.
- Acabamento: Eletropolimento para brilho espelhado sem rebarbas.
- Corte preciso: Eletroerosão a fio para remoção de suportes internos.
Design que conta história: de Senna ao V10
O designer Fabio Castellotti explicou que o briefing da F1 exigia “metal puro” e referências afetivas. O resultado condensa três camadas simbólicas em um único volume:
A Curva do S (Senna) aparece repetida na estrutura vertical, simulando as 71 voltas que o campeão percorrerá. A bandeira quadriculada emerge em um ângulo específico de visão. E a silhueta do Brasil surge como um “easter egg” tridimensional ao rotacionar o troféu.
A base retoma o formato de zebra de pista, com gravações nas cores da bandeira. Mas o detalhe mais sonoro é a homenagem ao coletor de escapamento de motor V10 — arquitetura que definiu a “identidade musical” da categoria entre os anos 90 e 2005.
Por que Joinville? O atestado de capacidade global
A escolha não foi por acaso. A Btomec atende há anos fabricantes de hipercarros europeus — nomes que exigem tolerâncias de mícrons e rastreabilidade total. Para a F1, o cronograma era inflexível: o convite chegou em 2025 e a entrega precisava coincidir com o fim de semana de corrida.
“Somos reconhecidos mundialmente pela expertise em titânio e inconel para superesportivos exóticos”, resume Castellotti. O diretor de operações, Wiland Tiergarten Júnior, admite o peso da responsabilidade: “Dá um frio na barriga enorme. Mas temos a melhor equipe e os melhores equipamentos do mundo”.
O que isso sinaliza para a manufatura brasileira
O caso extrapola o automobilismo. Uma empresa do sul do país entregou um componente de altíssima visibilidade global usando tecnologia de ponta — impressão 3D em metal — que ainda é rara no parque industrial nacional.
Isso coloca Joinville no mapa da manufatura aditiva de alta performance, setor que deve movimentar bilhões globalmente na próxima década. A capacidade de imprimir peças finais em titânio, e não apenas protótipos, abre portas para defesa, aeroespacial e saúde.
O que observar daqui para frente
O troféu de 2026 já está em desenvolvimento, o que indica a consolidação da parceria. Para investidores e gestores, o sinal é claro: a competência técnica brasileira em materiais avançados e manufatura digital está pronta para contratos globais de alto valor agregado.
Acompanhe a evolução da certificação de processos SLM no Brasil e a entrada de novos players na cadeia de suprimentos de ligas de alta temperatura. O pódio de domingo foi apenas a vitrine; a fábrica em Joinville é o ativo real.
