Tecnologia

O segredo do troféu da F1 no Brasil: titânio, impressão 3D e um mapa escondido…

Troféu do GP de São Paulo em titânio impresso em 3D com mapa do Brasil invisível
Troféu do GP de São Paulo 2024 fabricado em titânio via impressão 3D em Joinville (SC).

O troféu que será erguido pelo vencedor do GP de São Paulo neste domingo (8) em Interlagos não é apenas um objeto de premiação: é uma demonstração de engenharia de ponta fabricada em Joinville (SC). A peça carrega um mapa do Brasil invisível a olho nu e usa a mesma tecnologia de manufatura aditiva em metal empregada em supercarros europeus.

Por que a principal categoria do automobilismo mundial escolheu uma empresa catarinense para criar o símbolo máximo da etapa brasileira? A resposta passa por uma combinação rara de domínio de materiais exóticos e capacidade de execução em prazos implacáveis.

A engenharia por trás da peça: titânio e atmosfera controlada

A Btomec, sediada na maior cidade de Santa Catarina, foi a selecionada para transformar o conceito em realidade. A matéria-prima escolhida foi o titânio, metal leve e resistente padrão na Fórmula 1, processado via fusão seletiva a laser (SLM) em câmara de argônio.

O processo elimina a oxidação e garante integridade estrutural impossível de atingir com usinagem convencional. Camada a camada, o pó metálico foi sinterizado até formar a geometria complexa que inclui curvas internas e a silhueta do mapa nacional — esta só revelada quando a peça gira sob a luz.

  • Material: Liga de titânio grau aeroespacial.
  • Tecnologia: Impressão 3D em metal (SLM) com atmosfera inerte de argônio.
  • Acabamento: Eletropolimento para brilho espelhado sem rebarbas.
  • Corte preciso: Eletroerosão a fio para remoção de suportes internos.

Design que conta história: de Senna ao V10

O designer Fabio Castellotti explicou que o briefing da F1 exigia “metal puro” e referências afetivas. O resultado condensa três camadas simbólicas em um único volume:

A Curva do S (Senna) aparece repetida na estrutura vertical, simulando as 71 voltas que o campeão percorrerá. A bandeira quadriculada emerge em um ângulo específico de visão. E a silhueta do Brasil surge como um “easter egg” tridimensional ao rotacionar o troféu.

A base retoma o formato de zebra de pista, com gravações nas cores da bandeira. Mas o detalhe mais sonoro é a homenagem ao coletor de escapamento de motor V10 — arquitetura que definiu a “identidade musical” da categoria entre os anos 90 e 2005.

Por que Joinville? O atestado de capacidade global

A escolha não foi por acaso. A Btomec atende há anos fabricantes de hipercarros europeus — nomes que exigem tolerâncias de mícrons e rastreabilidade total. Para a F1, o cronograma era inflexível: o convite chegou em 2025 e a entrega precisava coincidir com o fim de semana de corrida.

“Somos reconhecidos mundialmente pela expertise em titânio e inconel para superesportivos exóticos”, resume Castellotti. O diretor de operações, Wiland Tiergarten Júnior, admite o peso da responsabilidade: “Dá um frio na barriga enorme. Mas temos a melhor equipe e os melhores equipamentos do mundo”.

O que isso sinaliza para a manufatura brasileira

O caso extrapola o automobilismo. Uma empresa do sul do país entregou um componente de altíssima visibilidade global usando tecnologia de ponta — impressão 3D em metal — que ainda é rara no parque industrial nacional.

Isso coloca Joinville no mapa da manufatura aditiva de alta performance, setor que deve movimentar bilhões globalmente na próxima década. A capacidade de imprimir peças finais em titânio, e não apenas protótipos, abre portas para defesa, aeroespacial e saúde.

O que observar daqui para frente

O troféu de 2026 já está em desenvolvimento, o que indica a consolidação da parceria. Para investidores e gestores, o sinal é claro: a competência técnica brasileira em materiais avançados e manufatura digital está pronta para contratos globais de alto valor agregado.

Acompanhe a evolução da certificação de processos SLM no Brasil e a entrada de novos players na cadeia de suprimentos de ligas de alta temperatura. O pódio de domingo foi apenas a vitrine; a fábrica em Joinville é o ativo real.