Pela primeira vez em dois séculos, o Instituto Rio Branco empossou diplomatas indígenas e uma quilombola. A turma que inicia o curso em 2026 carrega 27 alunos de grupos sub-representados — quase metade dos 60 aprovados no concurso mais disputado do serviço exterior brasileiro.
A posse ocorreu na quarta-feira (4) no Palácio Itamaraty. O marco não é apenas simbólico: ele altera a composição real de quem negociará acordos comerciais, ambientais e de direitos humanos nos próximos anos.
Quem são os novos rostos da diplomacia
Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, são os dois indígenas empossados. Marcelo é engenheiro elétrico pela UFCG com MBA em Digital Business pela USP/Esalq; atuou como engenheiro de suporte a produtos entre 2021 e 2025 e publicou livro infanto-juvenil. Idjahure é doutorando em Antropologia Social na USP, mestre pelo Museu Nacional/UFRJ e bacharel em Ciências Sociais pela PUC-Rio.
A única quilombola da turma não teve o nome divulgado na cerimônia. Completam o grupo 17 pessoas negras e sete pessoas com deficiência. Mulheres somam 45% da turma — a maior proporção feminina da história do instituto.
O mecanismo por trás da mudança
O resultado decorre de ações afirmativas previstas no Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) e de uma reivindicação de décadas dos movimentos de direitos humanos. O Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia foi expandido: além de pessoas negras, agora contempla mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.
Dados do IBGE (2022) dão a dimensão do desafio: o Brasil tem 1,2 milhão de indígenas em 391 etnias falantes de 295 línguas, além de 114 grupos isolados ou de recente contato. A população negra totaliza 92,1 milhões, dos quais 45,3% se declaram pardos. Até 2025, nenhum indígena ou quilombola havia ingressado na carreira.
O que disse a cúpula do governo
A ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, classificou a posse como “ato de resistência” em tempos de ameaças à democracia e aos direitos da Constituição de 1988. “O Itamaraty reafirma o papel que esses grupos têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo”, declarou.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, usou o conceito de “Aldear o Estado”: inserir lideranças indígenas em espaços técnicos capazes de influenciar decisões internas e externas. “Não é apenas um ganho individual ou coletivo, é um ganho de toda a nação”, afirmou.
O imortal Ailton Krenak, da Academia Brasileira de Letras, destacou a presença de famílias e crianças na solenidade como rompimento da “frieza institucional”. Pediu que os novos diplomatas “exercitem o verbo esperançar e produzam mundos ricos de sentido”.
O que observar daqui para frente
O curso de formação dura dois anos (2026-2028). Ao final, esses 27 diplomatas assumirão postos no Brasil e no exterior. A métrica real de impacto será quantos chegam a chefias de setor, embaixadas ou representações em organismos multilaterais — espaços onde a diversidade ainda é residual.
Outro ponto de atenção: a retenção. O Itamaraty historicamente perde talentos de grupos sub-representados para o setor privado e organismos internacionais. O acompanhamento da progressão funcional dessa turma será o teste de se a porta aberta em 2026 permanece aberta nos próximos concursos.
- Turma 2026: 60 alunos, 27 por cotas (45%)
- Perfil: 2 indígenas, 1 quilombola, 17 negros, 7 PcD, 45% mulheres
- Formação: 2026 a 2028 no Instituto Rio Branco
- Base legal: Estatuto da Igualdade Racial (2010) + edital do CACD
Para empresários e investidores que monitoram a inserção internacional do Brasil, a composição do corpo diplomático sinaliza como o país pretende se posicionar em fóruns de clima, comércio e direitos humanos. A presença de diplomatas com vivência direta em territórios indígenas e quilombolas pode alterar a redação de instruções negociadoras e a leitura de demandas internacionais sobre cadeias de fornecimento e salvaguardas socioambientais.
