Três das maiores empresas de energia e combustíveis do país entregaram números que fogem do script nesta quinta-feira (5). Axia, PRIO e Vibra não apenas lucraram — elas reescreveram as expectativas do mercado com margens que exigem uma releitura dos modelos. O que esses resultados sinalizam para o segundo semestre?
A virada de R$ 6,5 bilhões da Axia
A Axia Energia (AXIA3) fechou o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 1,11 bilhão. No mesmo período de 2025, a companhia amargava prejuízo de R$ 5,45 bilhões. Uma inversão de R$ 6,56 bilhões em doze meses.
O Ebitda regulatório ajustado subiu 8,4%, para R$ 6,92 bilhões, enquanto a receita operacional líquida regulatória avançou 0,9%, atingindo R$ 10,03 bilhões. A geração de caixa operacional manteve-se robusta mesmo com receita praticamente estável — sinal de disciplina de custos e alavancagem operacional funcionando a favor.
PRIO: o dólar como aliado e a produção em escala
Em dólares, o salto é ainda mais impressionante. A PRIO (PRIO3) reportou lucro líquido de US$ 521 milhões, alta de 468% ano a ano. O Ebitda atingiu US$ 1,135 bilhão (+268%), com o ajustado em US$ 1,07 bilhão (+235%).
Três pilares sustentam o desempenho:
- Produção média acima de 100 mil boe/dia pela primeira vez;
- Real desvalorizado turbinando a receita em moeda local;
- Custo de extração controlado mesmo com expansão de volume.
A companhia colhe os frutos da integração dos ativos da Albacora e do ramp-up de Frade. O guidance de produção para 2026 ganha credibilidade.
Vibra dobra o Ebitda e deixa consenso para trás
A maior distribuidora de combustíveis do país entregou Ebitda ajustado de R$ 4,3 bilhões — mais que o dobro dos R$ 1,8 bilhão de um ano antes e bem acima dos R$ 3,8 bilhões projetados pela LSEG. O lucro líquido ajustado de R$ 2,4 bilhões quadruplicou na comparação anual e superou a estimativa de R$ 1,8 bilhão.
Dois vetores explicam a surpresa: volume de vendas maior que o esperado e despesas financeiras em queda livre. A gestão de dívida e o alongamento de perfil vêm rendendo frutos mais rápidos do que o mercado precificava.
Movimentações societárias: Azzas e HBR Realty
Enquanto o operacional brilha no óleo e gás, o varejo e imobiliário movimentam o tabuleiro. A Azzas 2154 (AZZA3) obteve aval final do CADE para sua cisão, sem restrições — pavimentando a separação entre Arezzo e Soma.
A HBR Realty (HBRE3) fechou a venda de fatias em quatro ativos para o fundo SPX Portfólio Alfa por R$ 938 milhões:
- 20% do Mogi Shopping
- 25% do Suzano Shopping
- 50% do Patteo Olinda Shopping
- 90,9% do Lead Corporate Faria Lima
A transação reforça a tese de reciclagem de portfólio e redução de alavancagem.
Simpar atinge menor alavancagem desde o IPO
A holding (SIMH3) lucrou R$ 137 milhões no 3T26, revertendo prejuízo de R$ 128,6 milhões. O destaque, porém, está no balanço: dívida líquida/Ebitda de 2,7x — piso histórico desde a abertura de capital em 2010. Movida, JSL e Vamos operam sob guarda-chuva mais leve.
Varejo e consumo: sinais mistos
C&A (CEAB3) lucrou R$ 56,5 milhões (-23,3% a/a), mas bateu o consenso de R$ 45,5 milhões. GPA (PCAR3) registrou prejuízo de R$ 220 milhões nas operações continuadas, revertendo lucro de R$ 142 milhões — efeito distorcido por crédito tributário extraordinário de R$ 418 milhões no 3T25. Sem esse item, o prejuízo teria recuado 20,3%.
Tenda (TEND3) decepcionou: lucro de R$ 57,3 milhões (-48,7%), bem abaixo dos R$ 136 milhões esperados. Inadimplência no Minha Casa Minha Vida e efeitos de swaps pesaram. Crescimento “mais moderado”, nas palavras da empresa.
Tecnologia e saúde: margem sob pressão e recuperação avança
Mercado Livre (MELI34) lucrou US$ 448 milhões, abaixo dos US$ 476 milhões estimados. Investimentos logísticos para a Black Friday comprimiram margens no trimestre.
Totvs (TOTS3) teve lucro ajustado de R$ 237,2 milhões (+8,8% a/a), mas margem líquida caiu a 12%. Culpa da alavancagem financeira pós-aquisição da Linx e recompra de ações.
Smart Fit (SMFT3) brilhou: lucro recorrente de R$ 248 milhões (+40%), Ebitda ajustado de R$ 763 milhões (+30%), margem de 32,5%. Expansão de unidades e maturidade do portfólio sustentam o momento.
Oncoclínicas: 74,6% dos credores já aderiram
O plano de recuperação extrajudicial da Oncoclínicas (ONCO3) soma agora R$ 4,3 bilhões em créditos apoiados — 74,6% da base. A cada nova adesão, a probabilidade de sucesso do processo aumenta e o risco de falência técnica recua. Faltam pouco mais de 25% para fechar a conta.
O que observar daqui para frente
Três frentes merecem radar nas próximas semanas: (1) a sustentabilidade do Ebitda da Vibra com petróleo volátil e câmbio instável; (2) a execução do guidance de produção da PRIO em 2026; (3) o desfecho da recuperação da Oncoclínicas — se atingir 90% de adesão, a reestruturação torna-se praticamente irreversível. No varejo, o quarto trimestre dirá se C&A e GPA conseguem converter eficiência operacional em lucro líquido consistente.
