Economia

Exportações para a UE disparam US$ 6,4 bi pós-acordo: o que muda para seu negócio

Gráfico de crescimento das exportações brasileiras para a União Europeia pós-acordo Mercosul
Exportações para a UE cresceram US$ 6,4 bi nos primeiros 5 meses de vigência do acordo

As vendas brasileiras para a União Europeia saltaram US$ 6,4 bilhões apenas nos cinco meses seguintes à entrada em vigor do acordo com o Mercosul. O total exportado entre janeiro e setembro atingiu US$ 44,2 bilhões, alta de 20% frente a 2024. Mas o número que importa para quem decide onde alocar capital está no detalhe: mesmo tirando commodities da conta, o crescimento foi de 13%.

O gatilho que ninguém esperava tão cedo

Dados da Apex apresentados no European Day mostram que o grosso do avanço — US$ 6,4 bi dos US$ 7,4 bi totais — concentrou-se entre maio e setembro. Coincidência? A diretora de negócios da agência, Márcia Nejaim, diz que não. “O acordo não beneficiou apenas o agro, mas também a indústria. Há espaço para diversificação em empresas de todos os portes.”

O movimento quebrou a inércia de décadas. Durante 26 anos, o tratado ficou no papel. A virada veio de fora: a imprevisibilidade tarifária dos Estados Unidos forçou a Europa a buscar alternativas seguras. O Brasil, maior economia da América do Sul, virou prioridade.

Por que a fatia europeia ainda é pequena — e isso é oportunidade

Hoje, a UE responde por apenas 14% da balança comercial brasileira. A China leva 30%. Para Sergio Quiroga, presidente da Eurocâmaras, o desequilíbrio revela espaço real de expansão: “Estamos começando agora a jogar esse jogo.”

Do lado europeu, a importação de produtos do bloco não cresceu no mesmo ritmo. Motivo: muitas indústrias já produzem no Brasil. Fábricas instaladas, cadeias locais consolidadas. O acordo, portanto, abre mais portas para sair do que para entrar — pelo menos no curto prazo.

O obstáculo invisível que trava embarques

Não basta ter tarifa zero. O diplomata Fernando de Mello Barreto, veterano das negociações, alerta: mercadorias já ficaram retidas na alfândega por falhas em especificações técnicas. “As exigências europeias são reconhecidamente complicadas. Quem não se prepara, perde o navio.”

Principais armadilhas relatadas por exportadores:

  • Rastreabilidade completa da cadeia (especialmente agro e madeira)
  • Certificações de sustentabilidade e due diligence ambiental
  • Rotulagem em idiomas oficiais do país de destino
  • Conformidade com REACH e normas químicas da UE

Cenários para os próximos trimestres

Se o ritmo de maio-setembro se mantiver, o ano fecha com cerca de US$ 60 bilhões em exportações ao bloco. Mas a variável decisiva não é tarifária — é operacional. Empresas que investiram em adequação regulatória nos últimos 12 meses estão colhendo agora. As que esperaram o acordo “pegar” para se mexer ainda correm atrás da documentação.

Outro vetor: a revisão do acordo prevista para 2026 pode ampliar cotas setoriais. Quem já tem acesso tende a ganhar preferência nas negociações de ampliação.

O que observar daqui para frente

Três sinais dirão se o momento vira tendência estrutural: (1) crescimento sustentado de manufaturados de média-alta tecnologia na pauta; (2) entrada de PMEs que nunca exportaram para a Europa; (3) redução do tempo médio de liberação alfandegária. Enquanto isso, a regra prática vale ouro: trate conformidade como investimento, não custo. Quem entendeu isso primeiro já está faturando os US$ 6,4 bilhões.