O Banco Central manteve a Selic em 13,75% nesta quarta-feira (4), mas o verdadeiro choque vem do calendário: a autoridade monetária tem apenas três reuniões para cortar juros antes da Sexta-feira Santa de 2027 — ou vira o bode expiatório oficial do governo.
Grandes bancos já projetam a taxa parada até meados do ano que vem. Enquanto isso, no atacado dos títulos de dívida, os juros para prazos acima de dois anos voltaram a flertar com os níveis de pânico vistos em janeiro de 2025.
Por que o BC virou “Judas” da vez
A pressão política explodiu nas redes entre o feriado de Todos os Santos e o Dia de Finados. O medo de que o presidente nomeasse uma diretoria heterodoxa, alinhada a visões opostas às de Gabriel Galípolo, acirrou os ânimos.
O pronunciamento presidencial previsto para domingo deve acenar com responsabilidade fiscal. Pouco, mas melhor que nada. O problema é que o BC entrou no “mato sem cachorro” desde o fim de 2024: carrega a Selic em nível de arrocho enquanto a economia desacelera.
Condições financeiras: o aperto que não alivia
Quando se fala em “condições financeiras”, o pacote inclui:
- Taxas de juros de mercado e câmbio
- Risco-país e juros nas economias centrais
- Índices de ações e commodities (petróleo à frente)
Todos esses vetores apertaram. O próprio BC admitiu no comunicado: “um aumento significativo das incertezas em torno do cenário base”. Qualquer corte precipitado na Selic faria as taxas longas, o dólar e a inflação saltarem de novo.
O que trava o alívio — e o que pode destravar
Três variáveis ditam o ritmo daqui pra frente:
- Programa fiscal: nem loucura nem grande mudança em relação ao governo anterior. O remendo pode funcionar, mas não alivia o custo de financiamento.
- Competência de execução: economia, política no Congresso e implementação real.
- Choques externos: juros globais e preço do petróleo seguem imprevisíveis.
A desaceleração do PIB em 2027 continua incerta. Sem reforma institucional relevante no horizonte, o cenário base é de mediocridade prolongada.
O que observar nas próximas semanas
O alívio, se vier, será lento, gradual e inseguro. Mantenha o radar no desenho final do arcabouço fiscal, na votação das medidas no Congresso e na ata da próxima reunião do Copom. São esses sinais — não promessas — que ditarão se o BC consegue sair da linha de tiro antes de março de 2027.
