Economia

Juros a 13,75%: Durigan admite taxa “muito alta” mas blinda BC; anúncio fiscal fica para depois da COP

Dario Durigan discursa sobre juros a 13,75% e ajuste fiscal no Brasil
Ministro Durigan reconhece Selic alta e defende ajuste fiscal para queda estrutural

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu publicamente que a Selic em 13,75% ao ano representa um patamar “muito alto” para a economia brasileira. A declaração ocorre menos de 24 horas após o Copom interromper o ciclo de cortes, pegando parte do mercado de surpresa.

Durigan evitou criticar a autonomia do Banco Central, mas deixou claro: o governo aposta no ajuste fiscal como único caminho viável para forçar a queda dos juros estruturais. A promessa de superávit primário para 2025 segue de pé, mas o pacote de medidas concretas foi adiado.

O que o ministro disse — e o que evitou dizer

Em entrevista nesta quinta-feira (5), Durigan adotou tom cauteloso. “Não vou fazer comentário valorativo” sobre a decisão do Copom, afirmou. Na sequência, porém, reforçou o diagnóstico de que o custo do dinheiro no Brasil segue incompatível com a necessidade de crescimento.

A estratégia discursiva é clara: separar a responsabilidade monetária — do BC — da responsabilidade fiscal — do Tesouro. Ao não atacar a manutenção da taxa, o ministro preserva a relação institucional. Ao chamar a taxa de “muito alta”, sinaliza ao mercado que o governo não se conforma com o status quo.

O entrave fiscal e a promessa de 2025

O centro da argumentação de Durigan reside no déficit público herdado. Segundo ele, a equipe econômica “enfrenta um déficit que veio do governo Bolsonaro” e trabalha para entregar superávit no ano que vem. O mercado, contudo, cobra o como.

Expectativas de inflação desancoradas, dólar pressionado e curva de juros longa são, na leitura do ministro, reflexos diretos da incerteza fiscal. Resolver a equação das contas públicas é, portanto, a condição necessária — ainda que não suficiente — para o BC retomar o afrouxamento.

Medidas concretas: só após a COP

Quem esperava anúncios de cortes de gastos ou revisão de benefícios para os próximos dias terá de esperar. Durigan foi taxativo: “Nos próximos dias, provavelmente não”.

O motivo logístico é a viagem do presidente Lula à COP. O ministro admitiu conversar diariamente com o chefe do Executivo, mas condicionou a apresentação de propostas ao retorno da comitiva. Até lá, o vácuo de medidas específicas mantém o prêmio de risco elevado.

  • Selic atual: 13,75% a.a. (mantida em 04/12)
  • Meta fiscal 2025: Superávit primário
  • Próxima janela de anúncios: Após retorno da COP
  • Foco dos ajustes: Corte de privilégios e revisão de despesas

Proteção aos vulneráveis e corte de “privilégios”

Durigan reforçou o mantra de que “nunca vai propor medidas que prejudiquem as pessoas mais pobres”. A retórica aponta para uma tesoura seletiva: redução de benefícios setoriais, subsídios e isenções tributárias consideradas regressivas.

A expressão “ajustes graduais” sugere que não haverá choque fiscal único, mas uma sequência de atos infralegais e projetos de lei. O risco político de mexer em direitos adquiridos ou benefícios de classe média alta, porém, permanece como variável incerta para a execução do plano.

O que observar daqui para frente

O cenário base depende de três variáveis encadeadas: a entrega do pacote fiscal pós-COP, a reação das expectativas de inflação no relatório Focus e a sinalização do Copom nas atas e na próxima reunião de janeiro. Se o governo detalhar cortes críveis de despesa obrigatória, a curva de juros longa pode ceder, abrindo espaço para o BC voltar a cortar a Selic no primeiro semestre. Caso o anúncio decepcione pela timidez ou atrase além de janeiro, a aposta majoritária do mercado migra para manutenção prolongada dos juros em dois dígitos, com impacto direto no custo de capital das empresas e na atratividade de renda fixa frente a bolsas.