Em dezenas de municípios americanos, as urnas derrubaram projetos de data centers na terça-feira (3) — e a rejeição cruzou linhas partidárias como raramente se vê. O sinal é claro: a expansão desenfreada da infraestrutura de IA encontrou um limite nas comunidades locais.
O caso mais emblemático aconteceu em Piqua, Ohio. Lá, dois terços dos votantes aprovaram uma consulta popular que proíbe instalações acima de 25 megawatts. Na prática, a medida enterra um empreendimento da Meta orçado em mais de US$ 1 bilhão, já aprovado pelas autoridades municipais.
O argumento que uniu agricultores e ativistas
Alisha Lange, agricultora de 42 anos e uma das líderes do movimento Save Piqua, resume o sentimento que levou à vitória:
“Somos uma cidade agrícola. Preferimos muito mais uma plantação de milho ou uma indústria que gere renda para um número maior de pessoas.”
O ponto central não é oposição à tecnologia, mas a conta que não fecha: data centers consomem volumes massivos de energia e água, pressionam a infraestrutura local e, após a construção, criam pouquíssimos empregos permanentes.
Não foi um caso isolado
Segundo a consultoria Redbud Consulting, mais de 30 restrições locais foram aprovadas apenas neste ciclo eleitoral. Elas se somam a cerca de 600 jurisdições que já impunham regras duras — incluindo estados inteiros como Nova York e Texas.
O mapa da resistência desenha um padrão:
- Ottawa, Kansas: moradores aprovaram proibição por ampla maioria; o líder comunitário Michael Lewis cravou: “Não estamos à venda”.
- Janesville, Wisconsin: o conselho municipal rejeitou em junho um projeto de US$ 8 bilhões da Viridian no terreno da antiga fábrica da GM; em seguida, eleitores referendaram novas restrições.
- Piqua, Ohio: a revolta derrubou dois vereadores e o prefeito.
O que mudou na avaliação dos projetos
Cathy Erdman, do grupo Janesville for Responsible Development, aponta a virada de chave:
“Antes, olhava-se só para empregos e valor do investimento. Hoje, a comunidade pesa arrecadação tributária real, impacto na infraestrutura, qualidade de vida e usos alternativos do solo. Esses fatores podem ter importância igual ou maior.”
Em Janesville, a exigência agora é que qualquer grande projeto no antigo terreno da GM passe por referendo. Parte dos eleitores não quer veto total — quer transparência e processo decente.
O efeito nas big techs
Meta, Google, Microsoft e Amazon têm bilhões alocados para expandir capacidade de IA. Cada rejeição local eleva o custo de aquisição de terreno, alonga prazos de licenciamento e força reavaliação de estratégias de localização.
O fenômeno também expõe uma fragilidade: aprovações técnicas em gabinetes não resistem ao escrutínio direto das urnas quando a população percebe assimetria entre benefícios prometidos e custos reais.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo da expansão nos próximos trimestres:
- Quantos novos referendos serão convocados em 2025 — e qual a taxa de sucesso.
- Se estados adotarão legislação uniforme para evitar o remendo de regras municipais.
- Como as big techs redesenharão contratos de energia e água para mitigar oposição local.
Quem acompanha alocação de capital em infraestrutura de IA deve tratar risco regulatório local como variável de modelo, não como ruído de fundo. A conta chegou — e quem paga não é mais só o investidor.
