A dívida bruta do governo geral bateu 82,9% do PIB em setembro de 2026, somando R$ 11,1 trilhões. Para estabilizar essa trajetória, o Banco Central aponta a necessidade de um ajuste primário de pelo menos 3 pontos percentuais do PIB.
A pergunta que fica é: quem vai pagar essa conta? Um estudo inédito, financiado pela Sarpen Quant Investments, desenha um caminho de R$ 373 bilhões anuais sem cortar os principais programas sociais.
O dilema político do corte “fácil”
Historicamente, a tentação é concentrar o sacrifício em aposentadorias de baixa renda e benefícios assistenciais. Isso preserva renúncias fiscais e subsídios que beneficiam, majoritariamente, os mais ricos.
Além de injusta, essa estratégia tem prazo de validade curto: dificilmente passa no Congresso e menos ainda sobrevive a sucessivos governos. O estudo propõe inverter essa lógica.
O mapa das 30 medidas: R$ 373 bi em dez anos
O levantamento consolidou 30 propostas de analistas independentes e do próprio governo. Após eliminar sobreposições e contabilizar a partilha com estados e municípios, a economia líquida para a União chega a R$ 373 bilhões por ano — o equivalente a 2,94% do PIB — no horizonte de uma década.
Como várias ações têm regras de transição para respeitar direitos adquiridos, o impacto imediato é menor: 0,81% do PIB no segundo ano, atingindo o potencial cheio apenas no fim do período.
O que fica de fora: a blindagem do gasto progressivo
A lista de “intocáveis” surpreende pela abrangência. Foram excluídos cortes no Bolsa Família, elevação da idade do BPC para 70 anos, congelamento do piso da saúde, redução de repasses ao Fundeb, fim dos subsídios do Minha Casa Minha Vida e encerramento do Pé-de-Meia.
A justificativa é técnica: o Banco Mundial já documentou, em 2017, que esses estão entre os gastos mais progressivos do Orçamento. Para eles, a recomendação é aperfeiçoar a focalização e a gestão, não reduzir o alcance.
Metade da economia vem do topo da pirâmide
Quase 50% da economia bruta do pacote atinge gastos regressivos ou pouco progressivos. Sem considerar sobreposições, R$ 118 bilhões anuais recairiam sobre a faixa de renda mais alta. Veja a composição:
- R$ 38 bi: Deduções de saúde, educação e dependentes no IRPF;
- R$ 27 bi: Isenção de IR sobre aposentadorias por doenças graves;
- R$ 25 bi: Isenção de LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas;
- R$ 10 bi: Juros sobre Capital Próprio (JCP);
- R$ 10 bi: Supersalários no serviço público;
- R$ 8 bi: Previdência dos militares.
Somam-se a isso a revisão de gastos tributários para empresas e o fim dos subsídios ao crédito do BNDES e dos fundos constitucionais. A classe média alta, principal beneficiária das deduções do IR, arcaria com parte relevante do ajuste.
O custo inevitável para a classe média trabalhadora
Nem tudo poupa os rendimentos médios e baixos. A maior medida isolada é a reforma paramétrica da Previdência: R$ 102 bilhões ao ano no fim da década. Ela eleva idades mínimas e tempo de contribuição, atingindo quem se aposenta por idade — grupo onde se concentram trabalhadores de menor renda e carreiras intermitentes.
A justificativa é demográfica: a expectativa de vida aos 65 anos subiu quase cinco anos desde 1988. A transição proposta, de um mês por ano até 2051, dá tempo para adaptação.
Outro ponto sensível é o fim do abono salarial, com economia de R$ 22 bilhões. O CMAP (Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas) já atestou a piora na focalização do benefício, hoje concentrado em camadas de renda média.
A regra de ouro para o Congresso não desmontar o pacote
A viabilidade do ajuste depende de manter a composição distributiva intacta na tramitação. Se a negociação poupar as renúncias dos mais ricos e compensar a diferença cortando os programas sociais hoje preservados, o apoio popular evapora e o ajuste necessário é adiado mais uma vez.
Por isso, a regra prática sugerida é clara: cada redução de alcance aprovada no Legislativo deve vir acompanhada de compensação equivalente em gastos regressivos. Só assim o perfil de justiça social do pacote se sustenta.
O que observar daqui para frente
O termômetro será a votação das medidas que mexem em benefícios tributários de alta renda — isenções de fundos imobiliários, JCP e deduções de IR — versus a resistência às mudanças nas regras previdenciárias e no abono. A capacidade do Executivo de articular a “regra de compensação” no Congresso ditará se o ajuste de 3% do PIB sai do papel ou vira mais uma promessa adiada.
