Tecnologia

O segredo do X: por que o caos de Musk vicia e não larga

Elon Musk ao fundo caótico do logotipo X com gráficos de queda de receita e aumento de tempo de tela
O paradoxo do X: menos receita e usuários, mas mais tempo de tela sob gestão de Musk.

Quatro anos após a compra do Twitter por US$ 44 bilhões, a rede social rebatizada de X encolhe em receita e usuários, mas bate recordes de tempo de tela. O paradoxo expõe uma armadilha comportamental que vai além da política ou da tecnologia.

No fim de semana passado, a queda de um Learjet 60 na Flórida matou nove pessoas, incluindo uma copiloto brasileira. Enquanto autoridades analisavam áudios da torre de controle, o X já tinha veredito: um míssil derrubado a caminho de Mar-a-Lago. A rota — Austin para a Flórida, a centenas de quilômetros de Palm Beach — desmentia a tese, mas o algoritmo já havia amplificado a mentira para milhões.

O motor da desinformação tem nome e CPF

A origem do caos não é acidental. Ao demitir as equipes de moderação e curadoria nos primeiros dias de gestão, Musk removeu os freios. No lugar, instalou um sistema que paga por engajamento: quem assina o selo “verificado” ganha alcance prioritário e receita compartilhada se o post viralizar.

O incentivo financeiro transformou a plataforma em uma fábrica de absurdos. Contas pagas espalham discursos de ódio, teorias da conspiração e conteúdo pornográfico sem filtro. No caso do acidente aéreo, foram perfis verificados que lideraram a narrativa do “míssil”. Dias antes, a mesma máquina inflou uma fala de um ex-vice do FBI sobre estocar comida por 30 dias, transformando-a em “alerta oficial de 90 dias” em poucos repasses.

Balanço financeiro: a conta não fecha

O custo dessa “liberdade” aparece nos números. Desde 2022, a receita publicitária despencou cerca de 70%. No primeiro semestre de 2022, o faturamento com anúncios foi de US$ 2,2 bilhões; no mesmo período de 2026, caiu para US$ 710 milhões — uma retração adicional de 18% apenas em relação a 2025.

  • Valor de mercado: Reavaliado em US$ 33 bilhões em 2025 (operação interna), perda superior a 25% sobre o preço de compra.
  • Base de usuários na UE: Em queda contínua desde 2023.
  • Doações políticas: US$ 474 milhões (R$ 2,57 bi) no ciclo eleitoral americano recente, com o feed priorizando conteúdo alinhado ao espectro republicano.

Por ser empresa de capital fechado, não há conselho ou acionistas minoritários para cobrar resultados. Se estivesse listada, a pressão por lucratividade provavelmente já teria forçado mudanças drásticas na gestão.

O êxodo institucional e a armadilha do tempo

Instituições sérias estão saindo. A emissora pública alemã Deutsche Welle encerrou a maioria de suas contas em outubro. O Ministério da Defesa da Alemanha paralisou publicações. Partidos e órgãos públicos europeus seguem o mesmo caminho: o argumento é a incompatibilidade entre a credibilidade institucional e um ambiente onde ódio e fake news circulam soltos.

Mas quem fica, fica mais tempo. Dados da SimilarWeb de setembro de 2026 mostram que o X lidera o tempo médio por visita: 13 minutos e 25 segundos. O Facebook registra 10m15s; o Instagram, 8m38s. A plataforma perde volume, mas ganha intensidade. Menos usuários, porém mais dependentes.

Por que o dedo não para de rolar

A resposta não está na qualidade do debate, mas no medo de ficar de fora. O X continua sendo a “chocadeira” da internet: memes, pautas e piadas que depois dominam WhatsApp e Instagram nascem ali. Sair significa perder o pulso da conversa global em tempo real.

Na economia da atenção, a sensação de estar por fora é um custo psicológico alto. O algoritmo explora essa vulnerabilidade: quanto mais caótico o feed, mais o usuário rola buscando o sinal no meio do ruído. É o ciclo do vício — não pelo prazer, mas pela ansiedade de perder o “momento”.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se o modelo se sustenta ou colapsa: a capacidade de atrair anunciantes de volta sem abrir mão do algoritmo de engajamento extremo; a regulação europeia (DSA), que já multa plataformas por falhas na moderação; e a eventual saturação do próprio público, que pode migrar em massa para alternativas menos tóxicas — como Threads, Bluesky ou Mastodon — quando o custo mental de permanecer superar o medo de sair. O relógio corre contra a paciência do usuário e o caixa da empresa.