Meio Ambiente

Pará bate recorde de extração de madeira em 5 anos: o que os números escondem sobre o mercado legal

Vista aérea da Amazônia no Pará mostrando áreas de exploração madeireira legal com clareiras e trilhas de arraste entre floresta intacta
Pará registra 60.664 hectares de exploração madeireira, maior área em 5 anos, revelando tensão entre economia e preservação

O Pará acaba de registrar a maior área de exploração madeireira dos últimos cinco ciclos anuais: 60.664 hectares entre agosto de 2024 e julho de 2025. O salto de 40% em relação ao período anterior expõe uma tensão crescente entre expansão econômica e controle ambiental na Amazônia.

Os dados, divulgados pelo Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), cruzam imagens de satélite com autorizações oficiais. O resultado revela um mercado em transformação — e riscos concretos para quem opera na cadeia da madeira.

Onde está o crescimento: legal ou ilegal?

A surpresa está na composição. Dos 60 mil hectares mapeados, 68% (41.538 ha) ocorreram em áreas com autorização. A extração legalizada disparou 83% em um ano. Já a ilegal caiu 6%, totalizando 19.126 hectares — o equivalente a 19 mil campos de futebol.

Em números absolutos, a ilegalidade ainda supera a área total de exploração de ciclos inteiros do passado recente. A pesquisadora Camila Damasceno, do Imazon, resume: “Há muito a avançar. Precisamos fortalecer a fiscalização e criar incentivos ao manejo comunitário”.

O custo oculto da madeira sem rastreabilidade

Carlos Souza Jr., coordenador de monitoramento da Amazônia no Imazon, faz a conta conservadora: duas a três árvores por hectare. Resultado: entre 38 mil e 57 mil árvores entraram no mercado sem plano de manejo, vistoria ou rastreabilidade.

O impacto vai além do desmatamento. Quando esse volume chega ao comércio sem garantia de origem, todo o setor sofre:

  • Desvalorização da madeira certificada
  • Risco reputacional para compradores e investidores
  • Pressão regulatória sobre toda a cadeia
  • Desestímulo a quem investe em conformidade

“Enfraquece os esforços de transparência e os investimentos de quem opera de forma regularizada”, alerta Souza Jr.

Terras indígenas: barreira que funciona, mas não resolve

Os números mostram que territórios indígenas concentram apenas 2% da ilegalidade detectada — 424 hectares, o segundo menor volume da série histórica. O dado reforça o papel desses territórios como contenção ao crime ambiental.

Mas há um ponto de atenção crítico: a Terra Indígena Amanayé aparece pela quinta vez consecutiva nos relatórios. A repetição sinaliza invasões persistentes em uma mesma área, expondo comunidades a conflitos e restringindo o uso tradicional do território.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o próximo ciclo: a capacidade de fiscalização acompanhar o crescimento da área autorizada; a implementação de rastreabilidade efetiva — do tronco ao porto; e a pressão de mercados internacionais por comprovação de origem legal. Para investidores e empresas do setor, o sinal é claro: a janela para madeira sem lastro documental está fechando. Quem não adaptar a cadeia de custódia agora, paga o preço depois — em multas, embargo ou perda de mercado.