A Justiça Federal aceitou a denúncia contra 12 pessoas pela queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP) em 9 de agosto de 2024. O que os depoimentos à Polícia Federal revelam é um cenário de disputa interna por poder que deixou a segurança em segundo plano.
Documentos sigilosos, liberados nesta semana, mostram que ex-diretores tentaram se eximir de culpas jogando a responsabilidade uns sobre os outros. Mas a perícia aponta para uma falha sistêmica — e um grupo de mensagens expõe a pressão para ocultar defeitos.
O organograma que ninguém respeitava
Marcel Sarquis Moura, ex-diretor de operações, afirmou à PF que a responsabilidade técnica pelas aeronaves cabia ao piloto-chefe Raphael Limongi. Segundo ele, a estrutura foi alterada meses antes do acidente: Limongi assumiu o Centro de Controle de Operações (CCO), cargo não exigido pela Anac, mas criado internamente.
Carlos Alberto Costa, ex-diretor de manutenção, contou versão oposta. Disse que o Centro de Controle de Manutenção (MCC) foi colocado sob o comando de Marcel, tirando dele a autoridade sobre os consertos. “Fiquei chateado, porque perdi essa área”, declarou em agosto de 2026.
No meio do tiroteio, Juliano Flores Pacheco, gerente de manutenção, seguia no cargo mesmo com a licença de mecânico cassada pela Anac desde 2022 por irregularidades técnicas.
O que a PF concluiu — e por que importa para você
O relatório final da Polícia Federal é taxativo: o Manual Geral de Operações e o organograma oficial definem que o diretor de operações deve assegurar que os voos ocorram dentro das limitações técnicas. A responsabilidade, portanto, recai sobre Marcel.
O delegado André Ribeiro foi além: Marcel soube de ocorrências semelhantes à do voo acidentado 11 meses antes e não adotou providências para evitar a repetição dos riscos. O equipamento de degelo da aeronave apresentava problemas recorrentes.
- 62 mortos: 58 passageiros e 4 tripulantes
- Data do acidente: 9 de agosto de 2024
- Aeronave: ATR 72-500, matrícula PS-VPB
- Rota: Cascavel (PR) → Guarulhos (SP)
- Réus: 12 pessoas, incluindo donos, diretores, gerentes e tripulantes
A cultura do “não reporte” e o grupo de WhatsApp
Ambos os ex-diretores negaram que houvesse orientação para não reportar falhas. Marcel alegou que, sem relato dos pilotos na ida a Cascavel, o CCO não pôde sugerir medidas cautelares no retorno. Carlos foi enfático: “Nunca, jamais” houve ordem para omitir problemas.
A PF discordou. O relatório aponta uma “cultura de não reporte” e gestão que priorizava a frota voando em detrimento da segurança. A prova-chave: um grupo de WhatsApp integrado por diretores e gerentes onde, segundo o despachante John Viana, a cúpula pressionava para “segurar essa liberação” e orientava que panes fossem omitidas até o retorno à base de Ribeirão Preto.
Quem são os 12 réus — e quem escapou
A denúncia do Ministério Público Federal alcança a alta administração da época:
- José Luiz Felício Filho (dono da Voepass)
- Marcel Sarquis Moura (diretor de Operações)
- Carlos Alberto Costa (diretor de Manutenção)
- Eric Consoli (diretor Técnico)
- David da Costa Faria Neto (diretor de Segurança Operacional)
- Raphael Limongi de Figueiredo (chefe do CCO)
- Rafael Gimenez Rodrigues (piloto-chefe)
- William Schmidt Agatz (gerente do CCO)
- Juliano Flores Pacheco (gerente do Centro de Controle de Manutenção)
- Tiago Passucci Morani (inspetor-chefe e gerente de engenharia)
- Marcos Hiroyuki Sato (despachante do voo 2283)
- Alex de Souza Leandro (mecânico)
Quatro indiciados firmaram acordos de não persecução penal e não constam na denúncia.
O que observar daqui para frente
O processo segue em segredo de justiça, mas a fase de instrução deve trazer à tona laudos periciais sobre o sistema de degelo e a análise das caixas-pretas. Para investidores e profissionais do setor, o ponto crítico é se a Anac revisará os critérios de fiscalização de centros de controle operacional criados “por fora” da regulação — exatamente a brecha explorada na reestruturação interna da Voepass.
A companhia afirma que colaborará com a Justiça e mantém a segurança como princípio fundamental. A defesa de Felício Filho diz que ele estava afastado da gestão direta à época e se manifestará nos autos. O próximo capítulo dirá se a “cultura de não reporte” era prática isolada ou padrão de mercado.
