Economia

Paraguai drena Itaipu e Brasil pode pagar conta: preço da energia ameaça subir 47%

Usina hidrelétrica de Itaipu na fronteira Brasil-Paraguai com linhas de transmissão de energia
Itaipu: consumo paraguaio reduz oferta ao Brasil e pode elevar preço da energia em 47% até 2029

O consumo paraguaio de energia da usina de Itaipu está acelerando e deve reduzir a oferta para o sistema brasileiro justo no horário de pico. O alerta vem de relatório do Itaú BBA e aponta para um aumento de até 47% no preço marginal da energia até 2029.

Historicamente, o Brasil usava sua cota integral e ainda comprava o excedente do vizinho. Esse equilíbrio está se invertendo — e os efeitos já têm data para aparecer no bolso dos consumidores e nas estratégias das geradoras.

O que está mudando na divisão da energia

Pelo tratado binacional, cada país tem direito a metade dos 14 GW de capacidade de Itaipu. Se um lado não usa, o outro pode adquirir. Durante décadas, o Paraguai consumiu pouco e o Brasil levou a sobra.

Nos últimos três anos, a demanda paraguaia saltou entre 12% e 18% ao ano. Em 2025, a carga média atingiu 3,3 GW, puxada por mineração de criptomoedas e data centers. Quase toda essa energia sai de Itaipu.

O choque de horários que ninguém previu

O problema não é apenas o volume. O pico de consumo do Paraguai ocorre às 18h — exatamente o mesmo horário do pico líquido do sistema brasileiro (SIN). Entre abril e setembro, a coincidência é total.

Projeções do banco indicam que a demanda da Ande (estatal paraguaia) nesse horário subirá de 4,0 GW em 2026 para 4,7 GW em 2029. Cada megawatt consumido lá é um megawatt a menos para o Brasil no momento de maior aperto.

Termelétricas ligadas e preço marginal em alta

Com menos hidrelétrica disponível no fim de tarde, o despacho termelétrico deve crescer cerca de 11% ao ano entre 2027 e 2029. O preço médio marginal (PLD) saltaria dos atuais R$ 40/MWh para algo entre R$ 59/MWh.

Esse cenário beneficia dois perfis de geradoras:

  • Termelétricas flexíveis: Eneva ganha espaço com geração a gás no horário de pico.
  • Hidrelétricas com energia descontratada: Axia, Copel, Auren e Engie podem vender no mercado de curto prazo nas janelas de preço alto.

Por que 2027 é o marco divisório

Até lá, a programação mensal do ONS (Operador Nacional do Sistema) usa metodologia antiga para projetar a carga da Ande — que não capturou a aceleração real. A nova regra entra em vigor em 2027 e deve refletir, pela primeira vez, o consumo efetivo do Paraguai.

Mas o efeito prático antecede a mudança de metodologia. Distribuidoras brasileiras que são cotistas de Itaipu já correm risco de ficar subcontratadas.

O alerta das distribuidoras e o leilão de novembro

A Abradee enviou carta à Aneel na semana passada pedindo definição “tempestiva” do volume que a Ande consumirá em 2027, a ser abatido das cotas brasileiras. Se houver variação relevante frente a 2026, as distribuidoras precisam retificar suas necessidades antes do leilão de compra de energia marcado para 13 de novembro.

Sem esse ajuste, elas terão de recorrer ao mercado de curto prazo — justamente onde os preços tendem a estar mais pressionados.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar a intensidade do impacto: a velocidade real da demanda paraguaia nos próximos 24 meses, a definição regulatória da Aneel sobre o abatimento das cotas e a capacidade do Brasil de contratar energia alternativa antes do leilão de novembro. Empresas expostas ao PLD e consumidores livres devem monitorar de perto a divulgação da programação do ONS para 2027 — ela será o primeiro termômetro confiável do novo cenário.