A Uber acaba de confirmar que terá mais de 2.000 carros autônomos rodando até o fim de 2027. O número impressiona, mas esconde uma corrida silenciosa contra o tempo — e contra a Waymo.
Enquanto o mercado digere o balanço do terceiro trimestre, a empresa revela que sua aposta no futuro sem motoristas custa caro agora. A receita de mobilidade ficou US$ 200 milhões abaixo do esperado. O lucro operacional despencou 36% frente às projeções.
O buraco no balanço que explica a pressa
O terceiro trimestre fechou com receita total de US$ 14,8 bilhões — leve alta sobre as estimativas. Mas a divisão que sustenta o nome da empresa, a de mobilidade, entregou US$ 7,5 bilhões. O gap de US$ 200 milhões não é detalhe: reflete a dificuldade real de colocar motoristas nas ruas.
O lucro operacional de US$ 1,4 bilhão ficou bem aquém dos US$ 2,2 bilhões projetados. A diferença? Uma reserva de US$ 484 milhões para processos judiciais e tributários. Sem esse impacto, a Uber teria batido a meta com folga.
Dara Khosrowshahi, CEO, foi direto: a guerra no Oriente Médio elevou o preço do combustível e piora no quarto trimestre. Em vários mercados, custo alto, mão de obra apertada e concorrência limitam a capacidade de atender a demanda.
O plano de 10 bilhões e a conta que não fecha sozinha
A resposta da Uber tem três pilares:
- Incentivos agressivos para atrair e reter motoristas humanos no curto prazo;
- US$ 10 bilhões comprometidos na expansão da frota autônoma;
- Capital de terceiros apenas quando a frota passar de 10 mil veículos — a partir de 2028.
Até lá, o dinheiro sai do próprio caixa. A empresa já cortou 10% da força de trabalho global — cerca de 3.300 postos — para liberar recursos. O ritmo de aquisições também desacelera: a compra da Delivery Hero por 13 bilhões de euros segue, mas novas M&As ficam em segundo plano.
Waymo na frente, Uber no retrovisor
Hoje, a rival da Alphabet opera cerca de 4.000 veículos autônomos, majoritariamente nos EUA. A meta da Waymo é fechar o ano com mais de 8.000. A Uber tem 700 previstos para dezembro de 2024, espalhados por nove cidades — incluindo Austin, Atlanta e Londres.
A parceria entre as duas existe: mais de 500 carros da Waymo já rodam pela plataforma da Uber em duas cidades americanas. Mas a estratégia de longo prazo diverge. A Uber quer 120 mil robotáxis próprios “ao longo do tempo”. A Waymo expande sozinha e licencia tecnologia.
As ações da Uber acumulam queda de quase 20% em 2024. O mercado cobra execução.
O que muda para quem decide investir ou operar
Três marcos definem os próximos 18 meses:
- Fim de 2024: 700 veículos autônomos na plataforma — teste real de escala;
- Durante 2025: expansão para até 15 novas cidades + captação de capital próprio;
- 2028 em diante: abertura para investidores externos na frota autônoma.
As reservas brutas cresceram 20% no trimestre, a US$ 59,8 bilhões. O núcleo do negócio respira. Mas a transição para robotáxis não é opcional — é a única rota para manter margens quando motoristas humanos ficam caros ou escassos.
O que observar daqui para frente
Fique atento a três sinais: a velocidade de abertura de novas cidades (a meta de 15 em 2024 é agressiva), a taxa de utilização dos 700 veículos atuais (dado que a Uber não divulga, mas define viabilidade econômica) e o desfecho da negociação com a Delivery Hero — se fechar, drena caixa; se travar, libera foco total no autônomo. O próximo balanço dirá se a aposta de US$ 10 bilhões começa a pagar a conta ou apenas a aumentá-la.
