Economia

3M fecha acordo de US$ 7,35 bi por “químicos eternos”: o que muda para o mercado

Logotipo da 3M sobre fundo com símbolos químicos PFAS e cifra de US$ 7,35 bilhões
Acordo histórico da 3M de US$ 7,35 bi encerra litígios sobre "químicos eternos" PFAS

A 3M vai desembolsar US$ 7,35 bilhões (cerca de R$ 40,3 bilhões) para encerrar a maior onda de processos por contaminação com PFAS — as substâncias apelidadas de “químicos eternos” por não se degradarem na natureza. O anúncio saiu nesta terça-feira (3) e cobre aproximadamente 99% das ações concentradas em um tribunal da Carolina do Sul, onde mais de 100 mil autores cobravam danos à saúde ligados a espumas de combate a incêndio.

O valor é expressivo, mas a estrutura do pagamento guarda uma surpresa que poucos notaram na primeira leitura. Entender o cronograma revela muito sobre como a empresa gere o risco no balanço.

Como o dinheiro sai do caixa nos próximos nove anos

O acordo não prevê desembolso imediato. O primeiro cheque — US$ 50 milhões (R$ 274 milhões) — só cai em 2026. Em 2027, a 3M não paga nada. A fatia mais pesada, 20% do total, fica concentrada nos dois últimos anos do cronograma, entre 2032 e 2033.

  • 2026: US$ 50 milhões (entrada inicial)
  • 2027: US$ 0 (ano de carência)
  • 2028–2031: Pagamentos escalonados (80% restante menos a parcela final)
  • 2032–2033: 20% do valor total (cerca de US$ 1,47 bilhão)

Essa engenharia financeira dá fôlego ao fluxo de caixa no curto prazo, mas empilha compromissos relevantes para a próxima década. Analistas já ajustam modelos de valuation incorporando esse passivo de longo prazo.

O acordo anterior já somava US$ 12,5 bilhões

Este não é o primeiro cheque. Em 2024, a 3M fechou outro acordo — de até US$ 12,5 bilhões (R$ 68,5 bilhões) — voltado a concessionárias públicas de água para financiar descontaminação e monitoramento de PFAS em sistemas de abastecimento. Somados, os dois acordos ultrapassam US$ 19,8 bilhões em provisões.

William Brown, presidente do conselho e CEO, classificou o novo acerto como “marco importante” que “reduz substancialmente as incertezas relacionadas aos processos judiciais”. A empresa reforça, porém, que o acordo não configura admissão de responsabilidade e mantém a prerrogativa de se defender caso cláusulas específicas não sejam cumpridas pelas partes contrárias.

Produção encerrada, mas passivo global permanece

A 3M cumpriu a meta autodeclarada de zerar a fabricação de PFAS até o fim de 2025 e diz investir em tecnologias de remediação nas áreas onde operou. Ainda assim, o fronte judicial segue aberto fora dos EUA.

  • Austrália: processo de US$ 1,43 bilhão (R$ 7,8 bilhões) por contaminação em bases militares
  • Bélgica: ação de ~US$ 35 milhões (R$ 192 milhões) ligada à fábrica de Zwijndrecht

Esses litígios internacionais operam em jurisdições e prazos distintos, o que dificulta a consolidação de uma provisão única. Para investidores, o risco residual não está apenas no valor nominal, mas na dispersão geográfica e na imprevisibilidade de decisões judiciais locais.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o impacto real no valuation da 3M nos próximos trimestres: a adesão efetiva dos autores ao acordo nos EUA (a meta de 99% pressupõe aceitação em massa), o ritmo de execução das remediações ambientais já prometidas e o desfecho das ações na Austrália e na Bélgica. Qualquer desvio nesses pilares reabre a discussão sobre provisões adicionais — e, consequentemente, sobre a geração de caixa livre disponível para acionistas.