A Âmbar Energia colocou as máquinas na rua em 22 de setembro, em Iranduba, marcando o fim de quase dois anos de paralisia no programa Luz para Todos no Amazonas. O pacote prevê R$ 785,9 milhões para conectar 18.775 unidades consumidoras em doze meses. A pergunta que fica é: o que garante que esta etapa será diferente do vácuo operacional visto nos últimos ciclos?
O tamanho do cheque e a conta que vai pagar
Do montante total, R$ 707,3 milhões saem da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), o fundo setorial que banca políticas de universalização. Os R$ 78,6 milhões restantes são aporte direto do agente executor. A divisão do capital revela a estratégia: duas frentes tecnológicas distinctas para resolver a geografia complexa do estado.
- Rede convencional: R$ 423,8 milhões para 1.865 km de média tensão, atendendo 11.517 unidades em 54 municípios.
- Sistemas isolados (solar + baterias): R$ 362 milhões para 7.258 ligações em 18 municípios de difícil acesso fluvial ou terrestre.
Onde a luz chega primeiro: o mapa da estreia
A largada ocorreu entre 22 e 25 de setembro em quatro frentes simultâneas. Juntas, elas concentram 4.688 das ligações prometidas na primeira fase — cerca de 25% da meta total.
- Presidente Figueiredo: 1.527 novas conexões.
- Zona rural de Manaus (ramal Água Branca/Zacarias, km 32 da AM-010): 1.652 moradias.
- Iranduba: 630 unidades.
- Rio Preto da Eva: 879 ligações.
Mas o efeito mais relevante aparece na logística das comunidades remotas.
Duas frentes, um mesmo objetivo: universalização
Nas áreas onde estender postes e cabos é tecnicamente inviável ou economicamente absurdo, a solução são kits fotovoltaicos individuais. Placas, inversores e baterias levam autonomia a 36.290 pessoas em 18 municípios. Já a rede convencional, com seus quase 1.900 km de extensão, mira 57.585 beneficiados em 54 cidades.
A opção pela geração distribuída off-grid não é detalhe: ela reduz o CAPEX por quilômetro e acelera o cronograma onde o transporte fluvial dobra o custo e o tempo de obra.
O vácuo de 2024 e 2025: entendendo o atraso
O contexto explica a urgência. Em 2024, a meta era 4.808 ligações; saíram apenas 291 — execução de 6%. Em 2025, com alvo de 4 mil unidades, o contador zerou: nenhuma ligação concluída até a retomada de setembro. A formalização dos contratos de execução, concluída apenas agora, era o gargalo burocrático que travava a liberação dos recursos da CDE.
O que observar daqui para frente
O cronograma de um ano é agressivo para a logística amazônica. Investidores e gestores devem monitorar três variáveis: a capacidade de mobilização de equipes em ramais e rios na seca/cheia, a taxa de conversão de contratos assinados em medidores instalados mês a mês e o fluxo de desembolso da CDE sem contingenciamentos. Se a curva de execução mensal não passar de 1.500 unidades a partir do segundo trimestre, a meta de 18.775 fica matematicamente comprometida.
