André Lara Resende defende cortar a Selic para 7,5% em doze meses e, depois, para uma faixa entre 3% e 5,5%. A conta parece atraente, mas ignora um gatilho que pode desancorar a inflação e corroer reservas. Entender esse mecanismo é vital para quem gere capital ou planeja investimentos no país.
A teoria que promete o paraíso (e o detalhe que ela omite)
A base do argumento é a Teoria Fiscal do Nível de Preços, de John Cochrane. A ideia central: o valor real da dívida depende da capacidade futura de pagamento do governo. Se o mercado não crê em superávits futuros, o ajuste ocorre via inflação — não importa o que o Banco Central faça com a taxa básica.
Política monetária e fiscal não operam em universos paralelos. O BC influencia a trajetória dos preços, mas não garante estabilidade sozinho. Déficits de hoje só são financiados se houver expectativa crível de superávits amanhã. É essa confiança que permite juros menores.
O que acontece se o BC forçar a barra sem lastro fiscal
Uma queda de juros incompatível com as contas públicas bate primeiro no câmbio. Conter a disparada do dólar exigiria queimar reservas acumuladas em duas décadas — reservas que acabariam financiando quem saiu na frente. O segundo efeito é mais perverso: a curva longa de juros.
O BC define a taxa de um dia. A taxa de dez anos, porém, depende de expectativa de inflação e prêmio de risco. Juros curtos artificiais empurram os juros longos para cima. Resultado prático: menos juro anunciado, mais juro efetivamente pago pelo Tesouro e pelo setor privado.
A prova real de 2016 que o mercado não esqueceu
O Brasil já testou o oposto. Em 2016, no auge da crise, aprovou-se o teto de gastos. O déficit primário ainda era de 2,48% do PIB. Mesmo assim, estudo do Ipea mostrou que a mera mudança na expectativa de trajetória derrubou os juros reais de longo prazo entre 1,7 e 2,7 pontos percentuais.
O resultado fiscal corrente era ruim; o que mudou foi a credibilidade do futuro. O prêmio de risco caiu antes do superávit aparecer. Essa é a lição: a reorganização das contas antecipa o ganho nos juros.
O nó górdio do orçamento atual
Hoje, o desafio é estrutural. Mais de 90% da despesa primária é obrigatória, engessada por indexação ao salário-mínimo e vinculações constitucionais. Sobra espaço quase nulo para escolhas ou ajustes discricionários. O gasto tornou-se pró-cíclico: aumenta na bonança e não cai na crise.
Sem atacar essa rigidez, qualquer corte de Selic será insustentável. A dívida continuará a crescer mais rápido que a economia, e o prêmio de risco voltará a subir.
A lista do que precisa mudar (antes de cortar a taxa)
- Reduzir indexações automáticas que corrigem despesas acima da inflação;
- Rever vinculações constitucionais que tornam o gasto pró-cíclico;
- Criar gatilhos efetivos de correção de rota quando metas fiscais são descumpridas;
- Avaliar sistematicamente gastos tributários (renúncias de receita).
Essas reformas não são alternativas à queda dos juros. São condições necessárias para que ela seja duradoura. Quando a trajetória futura se torna crível, o custo do dinheiro cai por antecipação.
O que observar daqui para frente
Juros altos são sintoma, não a doença. Não há atalho: a solução passa pela reorganização do orçamento e pela reconstrução da confiança. Para o investidor e o empresário, o sinal a monitorar não é a próxima reunião do Copom, mas a execução orçamentária e a credibilidade das regras fiscais.
Enquanto a rigidez do gasto não for endereçada, apostar em Selic baixa estrutural é arriscado. Posicione-se para volatilidade cambial e curvas de juros inclinadas. O prêmio por carregar risco Brasil continuará alto até que a aritmética feche — com ou sem teoria fiscal.
