O dólar abriu esta quarta-feira (4) em queda de 0,52%, cotado a R$ 5,4587, reagindo à vitória democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Mas o movimento cambial é apenas a ponta do iceberg: a decisão do Copom no fim da tarde e os sinais sobre a reforma tributária podem ditar os próximos passos do câmbio e dos juros no Brasil.
Investidores leram o resultado americano como um freio na agenda de Donald Trump. Com o controle das duas Casas do Congresso, os democratas tendem a dificultar novos pacotes de gastos e cortes de impostos — o que reduz a pressão inflacionária global e, por tabela, alivia o real.
O que as midterms mudam no tabuleiro global
O Partido Democrata elegeu 20 senadores, sete deles virando cadeiras historicamente republicanas, e atingiu 54 das 100 vagas no Senado. A maioria na Câmara também foi confirmada na madrugada. Trump, que dias antes condicionava o reconhecimento do resultado a eleições “limpas”, afirmou ao New York Times estar “absolutamente disposto a aceitar” e prometeu buscar acordos com a oposição.
Para o mercado, a leitura é clara: menor risco de expansão fiscal agressiva nos EUA significa dólar mais fraco no mundo e menos pressão para que o Federal Reserve acelere a alta de juros. Na Ásia, o índice de Xangai saltou 2,16% — maior alta em sete meses — e Hong Kong avançou 1,67%.
Copom decide hoje: Selic parada, tom mais duro
Enquanto o exterior dá trégua, o Banco Central brasileiro anuncia sua decisão às 18h30. A expectativa unânime é de manutenção da Selic em 13,75% ao ano. O foco migra para o comunicado: o Copom deve adotar discurso mais duro (“hawkish”) diante da deterioração das expectativas de inflação e da pressão fiscal interna.
O Boletim Focus mais recente mostra projeção de IPCA para 2023 acima de 5,5%, bem acima da meta de 3,25%. Com o mercado de trabalho aquecido e incertezas sobre o arcabouço fiscal, o BC tende a sinalizar que não há espaço para corte de juros no curto prazo.
Reforma tributária e o “imposto do pecado”
Outro vetor de atenção é a sinalização do governo de prorrogar a cobrança do IPI até janeiro de 2027 para setores que serão atingidos pelo imposto seletivo — o chamado “imposto do pecado”, que taxará produtos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. A medida provisória deve ser enviada ao Congresso nos próximos dias.
Essa transição gera dúvidas sobre a arrecadação e a competitividade da indústria. Setores como bebidas, fumo e veículos poluentes acompanham de perto a definição das alíquotas e das regras de crédito.
Números do dia: o retrato rápido
- Dólar: -0,52% (R$ 5,4587) | Semana: +0,79% | Ano: -0,03%
- Ibovespa: abre às 10h | Semana: -1,42% | Ano: +2,74%
- Selic: expectativa de manutenção em 13,75% a.a.
O que observar nas próximas sessões
A combinação de dólar mais fraco com juros altos no Brasil costuma atrair fluxo para a renda fixa local, mas o cenário fiscal doméstico segue como principal risco. Se o comunicado do Copom indicar que a porta para alta de juros permanece aberta, o real pode ganhar fôlego adicional. Por outro lado, qualquer ruído na tramitação da reforma tributária ou nas contas públicas tende a limitar a apreciação cambial.
Para quem opera ou planeja investimentos, a semana segue decisiva: atas do Fed saem na quarta-feira (11), CPI americano na quinta (12) e, no Brasil, o IPCA de outubro será conhecido na sexta (13). Três dados que podem virar o jogo cambial de ponta-cabeça.
