Cultura

Escritor corre contra o tempo: livros viram moeda para aparelho auditivo da mãe

Anderson Rodrigo segurando seus livros publicados para campanha de aparelho auditivo da mãe
Escritor sorocabano vende livros para custear aparelho auditivo de R$ 10 mil para a mãe de 70 anos.

Anderson Rodrigo, 41 anos, transforma cada exemplar vendido em um passo rumo aos R$ 10 mil que a mãe precisa para voltar a ouvir. A campanha nasceu da urgência, não do marketing.

Morador de Sorocaba (SP), o autor já publicou cinco livros e vê uma peça sua voltar aos palcos após nove anos. Mas o reconhecimento literário ainda não pagou as contas médicas.

O preço de ouvir de novo

Aos 70 anos, a mãe de Anderson enfrenta um impasse burocrático que atrasa a aposentadoria. Sem renda própria, a perda auditiva no ouvido esquerdo virou barreira intransponível. O orçamento do aparelho: dez mil reais. Para a família, um valor inalcançável sem ajuda externa.

“Não é vaidade. É qualidade de vida”, resume o escritor, que divide os dias entre cuidar da mãe, produzir artesanato em biscuit e escrever.

Literatura com propósito social

Anderson não escreve por entretenimento vazio. Suas obras abordam prevenção ao suicídio, saúde mental juvenil, preconceito e identidade LGBT+.

  • Ainor, A Lenda do Príncipe Sem Asas — fantasia épica com protagonismo LGBT+ (relançamento físico em outubro de 2024)
  • A Incrível Jornada de Fiero — infantil
  • Boroa, Meu Melhor Amigo — infanto-juvenil ambientado na Amazônia com folclore brasileiro
  • Beijo da Morte — dark romance sobre jovem que dialoga com a morte desde a infância

O fio condutor: personagens que enfrentam o invisível e sobrevivem.

Do papel ao palco: “Será que Ele É?”

Nos dias 21 e 22 de novembro, o Teatro Iara em Itu (SP) recebe a remontagem da peça escrita em 2017. A trama acompanha Paulinho, influenciador global que esconde a homossexualidade até ter fotos íntimas vazadas no próprio aniversário. O vazamento detona a máscara e inicia a jornada de aceitação.

Nove anos depois, o texto virou livro e agora retorna às origens teatrais do autor — Itu, sua cidade natal.

O gargalo da visibilidade

Anderson admite: não conseguiu furar a bolha algorítmica. As redes sociais não convertem em vendas sustentáveis. Enquanto isso, ele aceita qualquer encomenda de biscuit — bonecos estilo Funko Pop, decoração de bolos — para compor a renda.

“Se não sei fazer, eu aprendo e entrego. O que aparecer”, diz.

O que observar daqui pra frente

A campanha depende de vendas diretas e boca a boca. Cada livro comprado reduz a distância entre o silêncio atual da mãe e o som da voz do filho. A peça em Itu pode gerar visibilidade local, mas o prazo é ditado pela saúde, não pela agenda cultural. Para quem acompanha: a próxima movimentação relevante será a resposta do público nas sessões de novembro e a conversão disso em receita real para o tratamento.