A demanda por óleos vegetais para fabricar biodiesel deve saltar 122% no Brasil, Estados Unidos e Tailândia até 2027, atingindo 34,3 milhões de toneladas. Se a União Europeia entrar na conta, o volume supera 40 milhões. Essa corrida por combustível verde está reescrevendo as regras do agronegócio global — e o reflexo já pesa no bolso do consumidor.
O que começou como uma agenda ambiental virou questão de segurança nacional após os choques no fornecimento de petróleo. O resultado é uma disputa direta entre o tanque dos caminhões e a panela de casa.
O salto nos números que redesenha o mapa do agro
A Indonésia lidera o movimento com a mistura obrigatória de 50% de óleo de palma (B50) desde julho. O consumo local deve bater 17,4 milhões de toneladas no próximo ano, mais que o dobro de 2020. Malásia e Tailândia também elevaram o teor para 20%.
No Brasil, a implementação do B16 em março empurrará o uso de óleo de soja de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas. Nos Estados Unidos, mudanças recentes na política energética projetam um avanço de 5 para 8,1 milhões de toneladas. A soma desses movimentos cria um piso de demanda sem precedentes.
- Indonésia (B50): 17,4 milhões de toneladas projetadas
- Brasil (B16): 8,7 milhões de toneladas de óleo de soja
- EUA: 8,1 milhões de toneladas
- Tailândia (B20 opcional): Expansão significativa
O impacto direto: preço na gôndola e renda no campo
Desde 2020, enquanto a inflação geral dos alimentos acumula 73%, o óleo de soja disparou 145%, segundo a Fipe. A equação é simples: quebras de safra, estoques globais apertados e uma nova fatia gigantesca de demanda industrial competindo pelo mesmo grão.
Para o produtor, o cenário sustenta a expansão da soja. A produção mundial deve saltar de 261 milhões de toneladas (2010/11) para 443 milhões em 2026/27, conforme o USDA. O Brasil, sozinho, sai de 75 para 182 milhões no mesmo intervalo, segundo a Conab. O óleo de soja já responde por 75 milhões de toneladas da oferta global de 243 milhões, empatado tecnicamente com o óleo de palma (79 milhões).
O gargalo invisível: comida versus combustível
Mas o crescimento vertiginoso tem um custo oculto. Nos últimos 15 anos, o uso de óleo de soja para biodiesel explodiu 913% nos EUA e 383% no Brasil. Para importadores líquidos como a Índia — que compra cerca de 16 milhões de toneladas anuais para alimentação —, a competição eleva o risco de desabastecimento e volatilidade cambial.
A canola (38 milhões de toneladas) e o girassol (24 milhões) não conseguem preencher a lacuna com a velocidade necessária. A concentração da oferta em poucas oleaginosas torna o sistema frágil frente a eventos climáticos ou geopolíticos.
O que observar daqui para frente
A implementação efetiva do B16 no Brasil em março é o gatilho de curto prazo mais relevante. Acompanhe também a evolução dos estoques finais nos EUA e a safra da América do Sul: qualquer frustração climática dispara prêmios imediatos. No médio prazo, a viabilidade da macaúba — com potencial de 7 a 10 vezes mais óleo por hectare que a soja — e a política de misturas na Indonésia ditarão se a pressão sobre preços arrefece ou se torna estrutural. Para o investidor, a tese passa a ser: quem controla a logística de esmagamento e a originação do grão captura a margem nesse novo tabuleiro.
