Economia

Biodiesel salta 122%: o segredo por trás da alta histórica do óleo de soja

Gráfico mostra alta de 122% no biodiesel impulsionada por demanda recorde de óleo de soja no agronegócio global
A demanda por óleos vegetais para biodiesel saltou 122% desde 2020, pressionando preços do óleo de soja e inflação de alimentos.

A demanda por óleos vegetais para mistura no diesel deve atingir 34,3 milhões de toneladas apenas no Brasil, EUA e Tailândia — um avanço de 122% sobre 2020. Impulsionado por guerras e insegurança energética, o movimento redesenhou o agronegócio global e pressiona a inflação de alimentos no varejo.

A corrida pelo óleo vegetal

O consumo de biodiesel cresce há duas décadas. Inicialmente, a meta era descarbonização. Hoje, a segurança do abastecimento dita o ritmo. O estrangulamento do petróleo após conflitos no Oriente Médio fez governos elevarem a mistura obrigatória como blindagem estratégica.

Se somada a União Europeia — onde o uso estagnou em 6 milhões de toneladas —, o volume global salta para 40,3 milhões de toneladas. A equação é simples: menos petróleo disponível, mais óleo de soja e palma nos tanques.

Mandatos globais: quem puxa a fila

As metas oficiais para o próximo ciclo mostram a aceleração:

  • Indonésia: B50 (50% de óleo de palma) desde julho; consumo projetado de 17,4 mi t (era 7,2 mi em 2020).
  • Malásia: Mistura de até 20%.
  • Tailândia: B20 opcional.
  • Brasil: B16 previsto para março; óleo de soja sobe de 4,2 mi para 8,7 mi t.
  • EUA: Volume salta de 5 mi para 8,1 mi t com novas regras energéticas.

O Brasil no centro do tabuleiro

A elevação da mistura beneficia diretamente o produtor. A demanda sustentada dá lastro à expansão da soja, que não para de crescer. Nos últimos 15 anos, o uso de óleo de soja para biodiesel explodiu 913% nos EUA e 383% no Brasil.

Mas há um efeito colateral perigoso. A Índia, maior importadora mundial, compra cerca de 16 milhões de toneladas por ano para alimentação. A disputa pelo óleo aperta o fornecimento interno indiano e eleva o piso de preços global.

Soja: a joia da coroa

A oleaginosa carrega essa expansão. A safra global saltou de 261 milhões de toneladas (2010/11) para projeção de 443 milhões em 2026/27, segundo o USDA. O Brasil, sozinho, deve pular de 75 milhões para 182 milhões no mesmo período, de acordo com a Conab.

Hoje, o mundo produz 243 milhões de toneladas de óleos vegetais. Palma (79 mi t) e soja (75 mi t) dominam, seguidas por canola (38 mi t) e girassol (24 mi t). A macaúba surge como aposta futura: rendimento 7 a 10 vezes superior à soja por hectare.

A conta chega na gôndola

O consumidor final já sente o peso. Desde 2020, a inflação média dos alimentos acumula 73%, mas o óleo de soja dispara 145%, segundo a Fipe. Não é só a demanda por biocombustível: quebras de safra, estoques apertados e cotações internacionais em alta formaram a tempestade perfeita.

O que observar daqui para frente

A implementação do B16 no Brasil em março é o gatilho imediato para testar a elasticidade da oferta nacional. Paralelamente, a capacidade da Indonésia sustentar o B50 sem racionar o mercado interno de óleo de palma definirá o viés de preços no segundo semestre. Para o tomador de decisão, o sinal é claro: a fronteira entre segurança energética e segurança alimentar deixou de ser teórica — ela está no balanço de oferta e demanda da próxima safra.