A demanda por óleos vegetais para mistura no diesel saltou 122% em três anos apenas no Brasil, Tailândia e Estados Unidos, empurrando o preço do óleo de soja para uma alta de 145% desde 2020 — o dobro da inflação dos alimentos. O gatilho não foi só a transição verde, mas uma corrida por segurança energética que reescreve as regras do agronegócio global.
Onde a mistura pesa mais: o novo mapa dos mandatos
Geopolítica e incerteza no petróleo forçaram governos a aumentarem a fatia do biodiesel no tanque. O resultado é uma escalada de metas que concentra consumo em poucos players:
- Indonésia: B50 (50% óleo de palma) desde julho; consumo projetado de 17,4 mi t em 2025 (era 7,2 mi t em 2020).
- Brasil: Salto para B16 em março de 2025 eleva uso de óleo de soja de 4,2 mi t para 8,7 mi t.
- EUA: Reformas energéticas recentes empurram volume de 5 mi t para 8,1 mi t.
- Malásia e Tailândia: Fixaram tetos de 20% (opcional nos tailandeses).
Somados, o trio Brasil, Tailândia e EUA deve consumir 34,3 milhões de toneladas. Com a UE estagnada em 6 mi t, o bloco chega a 40,3 mi t.
O efeito direto no campo: soja em ritmo de guerra
A alta da mistura garante piso de demanda para o produtor. Nos últimos 15 anos, o óleo de soja destinado a biodiesel explodiu 913% nos EUA e 383% no Brasil. Esse apetite sustenta a expansão da oleaginosa: a safra global deve saltar de 261 mi t (2010/11) para 443 mi t em 2026/27 (USDA). O Brasil sozinho sai de 75 mi t para 182 mi t no mesmo horizonte (Conab).
Mas a soja tem concorrente de peso. A macaúba, nativa do Cerrado, promete render de 7 a 10 vezes mais óleo por hectare. Se a escala industrial vingar, a geografia da matéria-prima muda radicalmente.
O gargalo que ninguém conta: comida versus tanque
Cada ponto percentual a mais no biodiesel retira óleo da mesa. A Índia, maior importadora mundial, já compra cerca de 16 milhões de toneladas por ano para alimentação. Com a disputa acirrada, os estoques globais encolheram e os preços internacionais aceleraram.
No varejo brasileiro, a conta chegou: enquanto a cesta de alimentos subiu 73% no período, o óleo de soja acumulou 145% (Fipe). Quebras de safra e câmbio ajudam a explicar, mas a demanda compulsória por combustível é o fio condutor estrutural.
O que observar daqui para frente
A implementação do B16 no Brasil em março é o divisor de águas imediato. Se a safra 2024/25 decepcionar, a pressão sobre estoques e preços interna se intensifica. No front externo, a capacidade da Indonésia sustentar o B50 sem racionar exportações de palma e a viabilidade comercial da macaúba ditam se o alívio virá de nova oferta ou de racionamento de demanda. Para o investidor, o sinal é claro: a margem do esmagamento de soja continua atrelada a decretos, não só a clima.
