O presidente da Abag, Ingo Plöger, coloca na mesa uma condição inegociável: sem reconstruir a ponte entre o agronegócio e o Planalto, o setor que sustenta a balança comercial brasileira continuará navegando em águas turbulentas. A conta, no fim, chega para quem produz e para quem investe.
Não se trata apenas de política. É sobre fluxo de caixa, custo de capital e a capacidade de honrar compromissos num cenário de juros altos e commodities pressionadas.
O tamanho do abismo de confiança
Plöger não usa meias-palavras: o diálogo “tem de ser reconstruído”. Nos últimos quatro anos, a relação oscilou entre o silêncio e o confronto aberto. O setor, majoritariamente alinhado à oposição, viu avançar pautas que considera hostis — da demarcação de terras à tributação sobre exportações.
Do outro lado, o governo colheu recordes de safra e abertura de 50 novos mercados internacionais, mas amargou desgaste com o meio rural. A eleição de 2022 deixou feridas expostas: o senador Flávio Bolsonaro (PL) fez do agro sua principal trincheira eleitoral e, derrotado, deixou o país dias após o resultado.
Agora, a ordem é “maturidade e serenidade”. Mas serenidade não paga dívida.
Produzir mais para ganhar menos: a equação que não fecha
O paradoxo atual assusta até os mais otimistas. A safra de grãos bateu recorde histórico — 322 milhões de toneladas em 2023 — mas a rentabilidade derreteu. Três fatores explicam o aperto:
- Juros reais elevados: Selic a 13,75% até agosto de 2023 encareceu o custeio e alongou prazos de pagamento.
- Preços achatados: Soja e milho caíram 20% a 30% no mercado internacional frente aos picos de 2022.
- Endividamento em alta: Pedidos de recuperação judicial no agro cresceram 53% no primeiro semestre de 2023, segundo a Serasa Experian.
“Você produz mais, mas com mais prejuízo. Nem sempre se sustenta por muito tempo”, resume Plöger. A conta é simples: sem margem, não há fluxo de caixa. Sem fluxo, não há investimento. Sem investimento, a produtividade estanca.
Clima: o risco que não perdoa
Se o cenário macroeconômico já impõe dificuldade, o clima adiciona volatilidade incontrolável. As enchentes no Rio Grande do Sul, em meados de 2023, destruíram lavouras e infraestrutura logística, empurrando produtores gaúchos para renegociações de dívida alongadas e onerosas.
No radar, o El Niño já dá sinais. Modelos climáticos indicam chuvas acima da média no Sul e seca no Norte e Nordeste entre o fim de 2023 e o primeiro trimestre de 2024. Para o milho safrinha — segunda safra, plantada em janeiro — o risco de estiagem na janela crítica de enchimento de grãos é real.
O governo promete um programa nacional de resiliência climática e reforço no seguro rural. Na prática, o seguro cobre hoje menos de 15% da área plantada no Brasil. A lacuna é enorme.
Fim da escala 6×1: o impacto silencioso na porteira
Pouco debatido nas manchetes, o fim da jornada 6×1 (seis dias de trabalho, um de folga) pode elevar a folha de pagamento do agro em até 18%, segundo estimativas setoriais. A natureza não respeita folga semanal: ordenha, irrigação, colheita e manejo de pragas exigem presença contínua.
Plöger é direto: “A vaca precisa ser ordenhada, a galinha tem de receber o insumo, o café tem de ser colhido.” A adaptação exigirá contratação de mais mão de obra ou pagamento de horas extras — num setor que já enfrenta escassez de trabalhadores qualificados no campo.
O que o Plano Safra 2024/25 promete (e o que fica no papel)
O documento de governo aponta direções claras:
- Ampliação dos recursos do Plano Safra com juros “compatíveis com a rentabilidade”
- Diversificação de funding via mercado de capitais (CPRs, Fiagros, LCA)
- Programa nacional de resiliência climática
- Fortalecimento do seguro rural
O orçamento do Plano Safra 2023/24 chegou a R$ 364 bilhões — alta de 27% sobre o ciclo anterior. Mas o custo de equalização das taxas (a diferença entre a taxa ao produtor e a taxa de captação do BNDES) pressiona o fiscal. Se o arcabouço fiscal travar, a torneira pode fechar mais cedo.
O que observar daqui para a frente
Três variáveis ditarão o ritmo do agro nos próximos 12 meses: a velocidade de queda da Selic (cada ponto percentual alivia R$ 3,5 bi ao ano no custeio), a concretização do marco das garantias para baratear o crédito privado e a execução orçamentária do seguro rural. Quem acompanha apenas o preço da soja em Chicago perde metade do filme. A outra metade roda em Brasília — e na porta da fazenda.
