Justiça

O mapa virou no Rio: Lula avança 7,6 pontos e quebra hegemonia bolsonarista na capital

Mapa eleitoral do Rio de Janeiro mostra avanço de Lula no segundo turno 2022
Lula avança 7,6 pontos e quebra hegemonia bolsonarista na capital fluminense

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) virou o jogo na cidade do Rio de Janeiro. O presidente subiu 7,63 pontos percentuais entre o primeiro e o segundo turno, avançou em todas as zonas eleitorais frente a 2022 e conquistou territórios que, até outro dia, pareciam inalcançáveis para a esquerda. O que era uma ilha de resistência em Laranjeiras virou maioria na capital.

O dado bruto impressiona: na 16ª zona eleitoral — Glória, Catete, Santa Teresa e Laranjeiras — Lula cravou 64,17% dos votos válidos. Mas o movimento vai muito além do berço histórico do petismo carioca.

Zona Sul, Centro e até a Ilha Vermelha

A virada não poupou nenhum recorte geográfico. O presidente ganhou na Zona Sul, no Centro, na Grande Tijuca e na Ilha de Paquetá — rebatizada de “Ilha Vermelha” nas redes após o resultado. O avanço na populosa Zona Oeste, área historicamente dominada por milícias e reduto bolsonarista ferrenho, pode ser o sinal mais relevante para quem lê o mapa eleitoral com lupa de analista de risco.

Em números absolutos, o crescimento de 7,63 pontos entre as duas rodadas supera a média nacional e expõe uma recomposição de forças que não se limita à capital.

O abalo em São Gonçalo: 48% no reduto do adversário

A surpresa da noite veio do segundo maior colégio eleitoral do estado. Em São Gonçalo, base do deputado bolsonarista Douglas Ruas, Lula atingiu 48,02% dos votos contra 51,98% de Flávio Bolsonaro (PL). A diferença de menos de quatro pontos percentuais em território hostil sinaliza erosão da hegemonia da direita na Baixada Fluminense.

Vizinha de Niterói — onde eclodiu o levante estudantil que ganhou projeção nacional —, São Gonçalo funcionou como termômetro da mobilização de base que impulsionou a virada no segundo turno.

  • Zona Oeste: crescimento expressivo em área de influência miliciana
  • São Gonçalo: 48,02% para Lula no maior colégio do interior fluminense
  • 16ª Zona Eleitoral: 64,17% — consolidação do bastião histórico
  • Variação 1º→2º turno: +7,63 p.p. na capital

Rachaduras no Palácio Guanabara

O governador Cláudio Castro — eleito no rastro da anulação dos votos de Anthony Garotinho em 2018 — sentiu o impacto. Aliados pressionam para que Flávio Bolsonaro perca influência direta na gestão estadual, num movimento que expõe a fragilidade da aliança que sustentou o bolsonarismo fluminense nos últimos quatro anos.

A tensão escalou para o Judiciário. Ganhou tração nas redes — nos moldes do “Exército do Lula” — uma campanha pela realização de segundo turno no Rio de Janeiro, matéria já judicializada no Supremo Tribunal Federal. A tese jurídica é frágil, mas a mobilização digital demonstra capacidade de pressão que não deve ser subestimada por agentes de mercado.

O que observar daqui para frente

Três vetores merecem monitoramento contínuo nos próximos meses: a capacidade do governo federal de converter capital político em investimentos estruturantes no estado; a recomposição da base aliada no Palácio Guanabara diante do enfraquecimento do eixo Bolsonaro-Castro; e a evolução da judicialização eleitoral, que pode criar instabilidade regulatória temporária.

Para o setor privado, o recado é claro: o mapa de poder no Rio mudou. Quem opera com cenários baseados na hegemonia bolsonarista fluminense de 2018-2022 está trabalhando com dados defasados. A recomposição de forças abre janelas — e fecha outras — em licenciamento, concessões, segurança pública e articulação parlamentar. A leitura atenta do novo tabuleiro separa quem antecipa risco de quem apenas reage a ele.